Nosso porvir | MUVUCA POPULAR

Sexta-feira, 19 de Outubro de 2018

ARTIGOS Quinta-feira, 11 de Outubro de 2018, 11h:51 | - A | + A




Nosso porvir

Nosso porvir

No último dia 07, ocorreu a polarização política que não poderia ter ocorrido em nosso país. Lembrando Drummond, eis a clássica pergunta: e, agora, José? 

Agora, precisamos tentar entender os porquês de termos chegado a esse ponto de tão perigosa divisão, que, aliás, mal começou. Se, no segundo turno, se confirmar a vitória dos bolsonaristas, o que parece provável, muita coisa nova – e não necessariamente razoável – estará por vir, podendo transformar o porvir de muitos brasileiros num verdadeiro inferno. 

Na tentativa de pensar sobre os motivos que nos trouxeram a esse ponto de esgarçamento, é preciso ouvir e compreender a sustentação discursiva que deu a vitória – por ora, parcial – a Bolsonaro, um antigo deputado federal que sempre esteve nas fileiras do baixo clero do Congresso. Antes de se lançar à presidência, Bolsonaro, saído da reserva das Forças Armadas, raramente era lembrado – sequer visto – por alguém que não fosse do Rio, seu estado de origem.

Mas, afinal, qual é a base discursiva dos bolsonaristas? 

Resposta: é tríade Tradição, Família e Propriedade. Em outras palavras, a famosa sigla da entidade cristã TFP, cujo lema, no Brasil, é “ipsa conteret” (“Ele vai”), retirado do universo bíblico (Gênesis; 3,15). Centralmente, aquela passagem bíblica refere-se ao ato do esmagamento da cabeça da serpente que provocara um tipo de “abalo sísmico” no Paraíso; ou seja, uma lorota que nos acompanha desde o ventre, mas que tem efeito devastador coletiva e individualmente. 

Mas por que esse discurso conservador/reacionário, que estava adormecido, reapareceu agora? 

Justamente porque ele estava adormecido, não extirpado; logo, se provocado fosse, poderia se reanimar. Provocado foi. Reanimou-se. 

Quem o provocou? 

Antes de quaisquer outros, os adversários diretos dos bolsonaristas no primeiro turno, ou seja, os petistas, que, aos bolsonaristas, incorporam o fazer maligno da serpente, que precisa ser esmagada. 

Cá entre nós, a corda foi esticada demais, e por muito tempo. De fato, não é qualquer um que aceita friamente um presidiário dar ordens políticas, de dentro de sua cela, para manipular seu partido. Isso pode ter sido a gota d’água. Mas antes da gota, um tsunami ocorreu durante o reinado petista, eleito com base em discursos de honestidade política. 

Desse tsunami fazem parte dois esquemas criminosos: o Mensalão e o Petrolão. Se aos petistas apaixonados isso é irrelevante, podendo ser esquecido e perdoado, aos demais brasileiros, não necessariamente. 

O discurso petista de “eles também são corruptos” (e, de fato, são) parece que não terá a sustentação e a duração que se pretendia. Ele poderá ser interrompido com a ascensão dos bolsonaristas ao poder. 

Com essa subida, esmagando a cabeça da serpente petista, tudo o que pode estar por detrás da “tradição”, “família” e “propriedade” virá com força por meio de decretos, projetos de lei, emendas constitucionais... 

E o que está por detrás desses termos acima? 

Com base no discurso de defesa da ordem e da segurança, encontra-se o conjunto de direitos humanos duramente conquistados. Eles poderão ser perdidos. Com certeza, serão interrompidos. 

Dificultadas também serão as lutas do “politicamente correto”, que, cá entre nós, também esticou a corda desnecessariamente em várias situações. Nesse bojo, novos (e reacionários) direcionamentos para a educação poderão vir. 

Enfim, o porvir do povo brasileiro será vigiado, controlado; logo, apequenado. 

O que nos resta? 

Saber que “desesperar, jamais”.

 

Roberto Boaventura da Silva Sá é professor de Literatura da UFMT e doutor em Jornalismo.

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COMENTÁRIOS

(1) COMENTÁRIOS

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Carlos Nunes - 12-10-2018 17:02:18

A turma fala que é o BOLSONARO que irá trazer a violência no país...Trazer uma coisa que já existe faz tempo? Não entendo essa turma. Ano passado foram assassinadas no país 64 MIL PESSOAS, este ano deve ser isso ou muito mais...se pegarmos do governo do FHC até hoje (passando pelo Lula, pela Dilma, pelo Temer), foram assassinadas no país 1 MILHÃO DE PESSOAS. O número de facções criminosas, nesse mesmo período, passou de 1 pra 87 facções. Acho que aconteceu tudo isso, porque faltou um BOLSONARO aparecer há mais tempo. BOLSONARO é uma REAÇÃO a tudo isso...O maior indicador social do país já é incalculável...em cada cidade brasileira, em cada bairro, tem uma porção de bocas de fumo...se somarmos todas as bocas do pais dá alguns MILHÕES. Facção criminosa, bocas de fumo, o salve das facções, surgiram de montão no NORDESTE...deve ser por isso que BOLSONARO venceu no primeiro turno em 5 capitais: João Pessoa, Maceió, Natal, Aracaju e Recife. E derrotou o Haddad em Fortaleza.

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