Os órfãos do Impeachment  | MUVUCA POPULAR

Sexta-feira, 19 de Outubro de 2018

ARTIGOS Sexta-feira, 28 de Setembro de 2018, 11h:07 | - A | + A




Os órfãos do Impeachment

Os órfãos do Impeachment

Os órfãos do Impeachment

Tentando entender o que se passa na cabeça de quem vota no deputado Jair Bolsonaro, passei umas noites em claro e conversei com centenas de seus eleitores - pessoalmente ou através das redes sociais - e não consegui encontrar uma lógica, pois os argumentos que usam para justificar sua preferência pelo ex-capitão não se sustenta por cinco minutos.  


Alguns dizem que estão cansados dos políticos tradicionais, da corrupção, da violência ou porque ele seria um “homem de família”. É aí que a coisa fica esquizofrênica. O deputado Jair Bolsonaro sintetiza tudo aquilo que eles mais criticam em um político. O capitão e sua prole familiocrata, há três décadas, enriqueceram e se sustentam em cargos públicos, ou seja, vivem exclusivamente do dinheiro público.

 

O padrão típico que define um homem de família é aquele fiel ao matrimônio e adepto do cristianismo. O deputado e agora candidato a presidente, Jair Bolsonaro, troca de esposa como quem troca de carro e de cristão não tem nada, muito pelo contrário. A pedra fundamental do cristianismo são os ensinamentos de Jesus Cristo, Nosso Senhor, que se norteia basicamente no amor ao próximo, na tolerância e na não violência. Quem não se lembra da passagem de Cristo, quando ele ofereceu a outra face?

 

Vendo um a um os argumentos dos eleitores do Bolsonaro caírem por terra e mesmo assim eles continuam determinados a dar seu voto para o deputado Jair, desisti de entender pela razão, mas de repente, veio-me a luz, e consegui descobrir um ponto comum que liga a maioria absoluta dos eleitores dele. Predominantemente, são pessoas da classe média que nunca tiveram militância político-partidária. Por falta de militância, de ideologia, e ideais, essa horda de eleitores do “coiso”, sentiam-se excluídos do processo político-eleitoral. Eles têm em comum ausência total de ideologia. Não seguem um roteiro, uma metodologia nem de esquerda muito menos de direita, como foi o fascismo na Europa, na década de 1940 do século XX.  


Quando um grupo poderoso e influente decidiu aproveitar a onda de manifestações, que teve início em São Paulo, em função do aumento da tarifa de ônibus, para promover um golpe tirando a presidente Dilma do poder, “bombaram" as mídias sociais, com o apoio irrestrito da grande mídia, começaram a promover grandes manifestações Brasil afora contra a corrupção e contra a presidente Dilma. Deu certo!

Esses “excluídos" customizaram suas camisetas amarelas e, pela primeira vez, se sentiram úteis e parte do processo e acharam aquele evento “muito top”. Houve uma verdadeira disputa para ver quem postava a melhor foto nas redes sociais em meio às manifestações. Não se deram conta que estavam fazendo o papel de idiotas úteis, sendo manipulados para atender ao desejo de um grupo político e empresarial que queriam tomar o poder. Um amigo meu, que participou dessas manifestações e diga-se de passagem tem curso superior e é esclarecido, me disse com muita convicção: Nós fomos pra rua e tiramos a presidente! Tive pena.

 

Após o impeachment, essas pessoas retornaram para suas casas e para a rotina da sua vida. Foram usados e dispensados. Aí bateu aquela sensação de exclusão de novo. Eles gostaram de se sentir empoderados, de se sentirem incluídos e úteis.


O consórcio que governou o país nos últimos catorze anos - PT, PMDB, PR, PP, PSD, PSB …- focou sua política social na classe baixa, mas não tirou nada da classe média nem da alta, muito pelo contrário, pois os ricos nunca foram tão ricos como nesse período, só que não foram o centro das atenções. E, foi aí que eu consegui decifrar o eleitor de Jair Bolsonaro. Eles sofrem de carência afetiva e clamam por atenção.

Nós, brasileiros, somos um povo passional, agimos muito mais pela emoção do que pela razão. Por um lado isso é bom, faz de nós um povo mais solidário e alegre, mas pagamos um alto custo ao deixar a razão de lado.

 

O que ainda nos mantêm no patamar de país subdesenvolvido, em parte se dá pelo fato de não termos critérios lógicos para escolher nossos representantes. Nos países desenvolvidos, a escolha de seus líderes se dá muito mais pela razão. Vou dar um exemplo prático. Uma dessas centenas de pessoas com quem eu conversei, me disse que votará no Jair Bolsonaro porque quer mudança e também para acabar com a corrupção. Mesmo, no fundo, tendo a consciência que o poder de um presidente é limitado e que a chance disso acontecer são mínimas. E aí vejam só que coisa esdrúxula, que balaio de gato, esse mesmo eleitor que votará em Bolsonaro, com o argumento de que quer mudança e para acabar com a corrupção, votará em candidatos para o parlamento estadual e também para o Congresso Nacional, em políticos tradicionais afundados em denúncias de corrupção. Tem até caso em que o candidato acabou de sair da cadeia direto para a campanha.


Mediante essa constatação, só nos resta a esperança de que a próxima geração seja menos emotiva na hora de escolher seus representantes. A minha vó dizia que "pirraça e casa velha só cai na cabeça do dono”. Por agora, esqueçam a razão.
Rodrigo Rodrigues, jornalista, empresário e graduado em Gestão Pública.

 

 

Rodrigues Rodrigues é jornalista 

 

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