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Sexta-feira, 19 de Outubro de 2018

ARTIGOS Segunda-feira, 08 de Outubro de 2018, 09h:43 | - A | + A




Por que deixamos de questionar?

Por que deixamos de questionar?

O dia era sábado e meus amigos e eu já havíamos decidido o que fazer: iríamos ao teatro às 20 horas, ver o espetáculo “ Cabaré aberração” e, mais tarde,  ao cinema assistir ao filme “Venon”.

 

No teatro, ficamos impressionados com a tragicomédia montada pelos alunos da MT Escola de Teatro. Figurinos maravilhosos que somados ao cenário criavam um clima buslesco. Tudo estava na medida e alinhavado pela dramaturgia inusitada de Talita Figueiredo. A história era simples: um cabaré habitado por figuras excêntricas e “corpos desviantes”, como disse sua própria personagem. Mas o que fascinava mesmo eram os temas abordados: machismo, patriarcado, homofobia, violência, preconceito...

 

Lembraram que nosso país é o que mais mata travestis e transsexuais no mundo (e o que mais procura por elas nos sites pornôs. Irônico, não?). Tudo parecia depoimentos sinceros e não texto decorado pelos atores. A peça era um soco no estômago e um grito de desespero.

Entretanto, a vida insiste em seguir.  E seguimos ao cinema para assistir ao famigerado “Venon”. Escolhemos tudo o que tínhamos direito ao preço que nos foi cobrado, que inclua óculos 3D e tudo mais.

Munidos de um balde de pipoca entramos. Éramos um clichê pronto para se deleitar com outro na tela. O filme começou e, passados cerca de quinze minutos da sessão, desconfiado, resolvi retirar meus óculos 3D e percebi que os prometidos efeitos de terceira dimensão não aconteciam. Para não passar vergonha sozinho, provoquei meus amigos a fazerem o mesmo. Todos retiraram os óculos e concordaram comigo. O filme não era em 3D. No entanto, olhamos em volta e o restante da plateia continuava com seus óculos, vidrados naquele blockbuster.

 

Dali em diante era como se eu tivesse tomado a pílula vermelha de Matrix. Nada mais fazia sentido. Aquele filme, o preço dos ingressos, as pessoas que continuavam fingindo assistir a um filme em três dimensões. Eu estava indignado e precisava fazer alguma coisa. Saí da sala e procurei o gerente. Ele conferiu meus ingressos, depois me acompanhou até a sala de exibição e me confidenciou, como se ao mesmo tempo em que me pedia desculpas quisesse me fazer cúmplice daquele disparate. O filme realmente não era 3D. Mas, como não era meu objetivo perturbar a paz daqueles que se contentavam com seus óculos descolados e também porque não resisto a cortesias de cinema, aceitei a proposta do gerente.

 

Retornei à sessão com minhas cortesias em forma de reembolso e com aquela ideia fixa na cabeça: por que as pessoas não retiravam seus óculos 3D? Como era possível não perceberem?

 

Na realidade, tem coisas que só a ficção é capaz de explicar. Veio-me logo à cabeça o livro “O Mágico de Oz” onde todos que chegavam à Cidade das Esmeraldas eram obrigados a usar óculos com lentes verdes o tempo todo. Assim, todos acreditavam que a cidade é que era verde e não seus óculos. Mas como a vista era linda, ninguém questionava.

 

Nem de longe quero traçar um comparativo entre uma arte ou outra, pois sou amante das duas em questão. O foco aqui é a plateia de cada evento e eu me incluo nela.

 

Enquanto uma se propôs a enfrentar assuntos desconfortantes, a outra nem foi capaz de perceber o que acontecia a sua frente ou, se percebeu, nada fez pra mudar.

 

Queremos mesmo mudança ou esse é só um mantra que entoamos enquanto mantemos nosso status quo? Mas o que podemos fazer, então? É que a vida é dedo na ferida.

 

E como desgraças acontecem aos montes e o tempo todo, quando recebemos pequenas alegrias, deixamos de questionar.

 

Obs: vejam teatro! Sempre é em 3D.

 

Eduardo Butukka é comunicólogo, ator e professor de teatro da rede pública estadual

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