Caso Campanhã: A história NÃO contada do governador Garcia Neto (Parte 1) | MUVUCA POPULAR

Sábado, 23 de Fevereiro de 2019

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"Oligarcia"

Caso Campanhã: A história NÃO contada do governador Garcia Neto (Parte 1)

MT virou notícia nacional após o assessor de Garcia Neto ser assassinado com dois tiros na cabeça

Por: Da editoria especial / Muvuca Popular

A morte de Levy Campanhã de Souza abalou o governador Garcia Neto: “Já vivi dificuldades com o assassinato de dois padres, um por um posseiro, outro por um soldado da polícia, o seqüestro e morte de Ludinho, e agora com esse caso”. O governador se referia ao padre salesiano Rudolf Lunkenbein e ao padre jesuíta João Bosco Burnier, e também a Lúdio Martins Coelho Filho. Os dois primeiros casos se referiam a centenária briga pela posse de terras e o segundo ao nascente narcotráfico em 1976.

O “Caso Campanhã” colocou o governo nas páginas policiais brasileiras, onde já vinha freqüentando por denuncias de corrupção. O assessor especial da Casa Civil Levy Campanhã estava esperando seus parentes para a Ceia de Natal, quando ao sair para brincar com seus filhos na porta da sua casa, na Rua 15 de Novembro, em Campo Grande, acabou levando dois tiros na cabeça as 20h30 de 24 de dezembro de 1977. Sua morte ocorreu meia hora depois.

O sepultamento ocorreu as 11h00 do dia seguinte, após ser velado na Loja Maçônica Oriente Maracaju. O cortejo foi muito grande, e composto não apenas por curiosos em geral, como grandes figuras da sociedade mato grossense. E estavam presentes o seu chefe imediato, o jornalista Ruy Sant´Anna dos Santos, e o seu chefe superior, o jornalista e secretário da Casa Civil Archimedes Pereira Lima, representante do governador. 

O diretor da empresa que recebeu R$ 40 milhões do Bemat, ofereceu R$10 mil para cada jornalista esquecer o assunto. Presidente do Bemat era concunhado do governador

O delegado regional Aluísio Franco de Oliveira declarou dois dias depois do crime que a motivação não tinha sido política. Os pistoleiros atiraram três vezes e fugiram com um revolver calibre 38 nas mãos. A ação foi considerada muito amadora pela polícia para ser crime de mando, e o principal, algumas testemunhas poderiam reconhecer os criminosos. Além disso, Levy Campanhã tinha revelado o desejo de retomar a sua carreira na advocacia após deixar o governo em 1978.

O que o delegado não disse é que a polícia já conhecia a identidade dos pistoleiros através de um informante conhecido por “Bide”. O informante deu dicas que levariam o caso para dentro da Casa Civil.

O governador Garcia Neto tinha enfrentado dois pedidos de impeachment, e o que o salvara da cassação foi que os votos dos deputados era secreto, caso contrário os escândalos o teriam derrubado. O maior dos escândalos era o nepotismo, a que a oposição chamava de “Oligarcia”, porque eram empregados 26 parentes do governador. O nepotismo foi negado por Garcia Neto, e ele reconhecia apenas 7 desses parentes porque os outros eram “parentes distantes da primeira-dama”.

O governador não gostava do assunto, e para encerrar esse tema, que sempre voltava nas perguntas dos jornalistas da mídia nacional dizia que “não dei emprego para parentes, dei trabalho, e por isso não vou demitir nenhum deles”. Garcia Neto se queixava que outros governadores, especialmente os nordestinos, empregavam parentes e os jornais não os perturbavam da mesma forma.

A verdade é que a mídia nacional não daria trégua porque Mato Grosso era uma fonte generosa de notícias. As más notícias. O governador tinha pegado empréstimo de R$90 milhões com o Banco do Brasil sem a autorização da Assembleia Legislativa. O melhor é que os deputados não conseguiram rastrear o uso do dinheiro.

Outro caso foi o empréstimo de R$45 milhões do Banco estadual (Bemat) para a empresa Matovag S/A, e o patrimônio da empresa não passava dos R$20 milhões. Segundo o governo a empresa privada deveria ser saneada e vendida para algum grupo econômico. A Matovag era uma laminadora de madeira e foi criada com benefícios fiscais, mas seus donos nunca apareciam, e com o empréstimo pouco usual os jornalistas procuraram o diretor da empresa para uma declaração. O diretor ofereceu R$10 mil para cada jornalista para esquecer o assunto. O assunto não apenas não foi esquecido como a tentativa de suborno foi publicada.

O presidente do Bemat era concunhado de Garcia Neto, e casado com a irmã de criação da primeira-dama. O governador tentou emplacar o concunhado no Tribunal de Contas, mas seu nome foi rejeitado por 13 x 7 pelos deputados em votação secreta. Mesmo com o risco político para o governador o seu concunhado não foi ejetado do governo.

A ofensiva do governo contra essas reportagens em nível nacional foi combatê-las com reportagens locais. Outra ação foi processar alguns deputados da oposição (MDB) por calunia devido ao termo “Oligarcia”, e esperar que isso assustasse os demais. A Segurança Pública também começou a abrir sindicâncias para apurar reportagens feitas pelos “comunistas” da grande mídia, os jornalistas Pedro Paulo Taucci (Jornal do Brasil), José Luís Alves (Veja) e Daniel Lopes (O Globo).

A pressão não funcionou, os jornalistas não responderam aos ofícios. Os profissionais disseram que já estavam cansados dos interrogatórios nas delegacias sobre os mesmos temas. A polícia sempre querendo saber quem eram as fontes, quem tinha pagado pelas reportagens para prejudicar o governo, ou quais seriam as próximas reportagens.

Garcia colocou a polícia para investigar jornalistas que que criticavam o governo e usavam o termo 'Oligarcia'

O governo também tomou a providência de editar decreto que suspendia a contenção das dotações orçamentárias do serviço de comunicação social do governo, ou seja, apesar das dificuldades econômicas de Mato Grosso o governo estava liberando o pagamento da rubrica verba oficial (as demais despesas do governo estavam contingenciadas, e seriam pagas depois).

A comunicação oficial do governo passou por reforma administrativa, e deixou de ser secretaria para ser apenas departamento interno da Casa Civil. O departamento de Divulgação do Governo (Sedimat) centralizou todas as informações do governo e reuniu toda a verba de publicidade nas mãos do jornalista Ruy Sant´Anna dos Santos, indicado pelo grupo político de Lúdio Martins Coelho, de Campo Grande.

O diretor da Sedimat Ruy Sant´Anna era jornalista desde 1970, e ainda no começo dos anos 60 entrou na militância política atuando na seção regional de uma agremiação anticomunista que acabou dissolvido pela Ditadura Militar pelo caráter antinacionalista, e depois entrou no comitê de campanha para o governo em 1965 de Lúdio Coelho (acabou perdendo para Pedro Pedrossian).

O novo responsável pela comunicação do governo era bem relacionado em Cuiabá. A Delegacia Regional do Trabalho (DRT) o nomeou como responsável pelo Sindicato dos Jornalistas (Jornamat), a entidade de classe fundada por Jucá (O Estado de Mato Grosso).

(Continua...)

Parte 2:  Como Garcia Neto calou a imprensa de Mato Grosso

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COMENTÁRIOS

(4) COMENTÁRIOS

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Dornele$ - 04-02-2019 15:40:36

Lula e sua quadrilha desviou 404 bilhões de reais e ainda é pobre? KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK!!!!!

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Marcio Linhares - 03-02-2019 08:21:42

Tenho acompanhado essa série história deste site, com muita admiração pela riqueza de detalhes, minúncia, verdades nunca reveladas, já que tudo que está escrito aqui não se encontra nem na maior enciclopédia do mundo, que é o google. Parabéns pelos textos, apesar de longos são envolventes. Aguardo a segunda parte!

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jose antonio silva - 03-02-2019 07:25:07

Ah! Então a canalhice dessa turma aí de cima (foto) vem desde o safado do ex governador? Não é de estranhar então de onde veio o dinheiro da familia, que incompetente, não sabe ganhar dinheiro de outra forma, está a caminho da quebradeira! Ah! tem um tal de Fábio Garcia, o quebradinho?

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jose antonio silva - 03-02-2019 07:19:42

acabou levando dois tiros na cabeça as 20h30 de 24 de setembro de 1977. Ceia de natal, em setembro? Mais uma que eu não sabia! Tem revisor aí não MUVUCA? Contrata eu!

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4 comentários