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Os tiros que não mataram Antero. Conheça os detalhes brutais da política em MT

Antero, Dante, Palma, Garcia, Barros, Machado, Porto, Neves, Campos, Torres, Lima, Bezerra, as famílias que dominavam a política nos anos 80

Da editoria especial / Muvuca Popular

A convenção do PMDB em 07 de julho de 1985 não terminou em morte devido à rapidez do vereador Antero Paes de Barros em salvar a sua própria vida, e um pouco de sorte também. Quatros tiros foram disparados em sua direção, com a intenção de matá-lo. A tentativa ocorreu às duas horas da madrugada no Ginásio de Esportes da UFMT.

O que estava em jogo na convenção, na verdade, uma pré-convenção com vistas à escolha do candidato do partido para campanha à prefeitura de Cuiabá. O deputado federal Dante de Oliveira era o favorito, mas o partido também estava recebendo os egressos do Partido Popular (PP).

Os recém-chegados estavam reunidos ao redor do ex-governador José Garcia Neto (1975-1978), e tinham como maior expressão o seu genro, que tinha sido escolhido prefeito de Cuiabá (1975-1979), e tinha sido eleito deputado federal, e constituinte, Rodrigues Palma.

O atirador voltou sua atenção para Aluísio Arruda, que agarrou Garcia Neto pelos braços o usando como um escudo. Aluzio começou a ser esmurrado por José Luiz, e na confusão Rodrigues Palma sacou seu revolver e deu coronhadas em Genilto Nogueira. Genilto perdeu as forças e caiu no chão, sendo chutado nas costelas por Garcia Neto

O grupo não era bem vindo pelo vereador Antero Paes de Barros, também presidente do diretório municipal do PMDB. Naquela madrugada foi redigida a ata que apresentava Dante como candidato, ao invés de deixar a decisão para a convenção partidária escolher os pré-candidatos com maiores votos. O nome de Rodrigues Palma também era forte, e a decisão tomada naquele momento teria efeitos também na campanha ao governo estadual de 1987.

O rascunho da ata deveria ser feito na segunda-feira, as 14h00. Porém o rascunho foi feito por Antero ainda na madrugada e Augusto Vieira (coordenador de Dante) ligou para Rodrigues Palma para leitura do texto. O deputado foi e levou Garcia Neto e seus filhos José Luís, Robério (“Berinho”) e Carlos Antônio (“Catonho”). Apareceu com o grupo do ex-governador o presidente da Câmara Municipal Wilson Coutinho, o advogado Fernando Neves e o empresário Emil Esper Haddad.

A briga começou com Catonho partindo para cima de Levi Machado, e com Antero tentando apartar. Wilson Coutinho que tinham ido ao banheiro assim que chegou partiu para cima de Antero com um revolver calibre 38 e a uma distância de três metros atirou. O tiro não acertou porque o advogado Elarmim Miranda se atracou ao braço de Coutinho.

Coutinho deu um safanão e Elarmim caiu, e chegou a ter o revolver encostado em sua orelha. Mas Coutinho pensou melhor e levantou a arma apontando contra Antero, que caiu ao tropeçar em uma escada, e evitou o segundo tiro, e ao se levantar tonto bateu o ombro no corrimão, evitando o terceiro tiro. O quarto tiro foi disparado, e Antero sumiu pela porta do ginásio.

O atirador voltou sua atenção para Aluísio Arruda, que agarrou Garcia Neto pelos braços o usando como um escudo. Aluzio começou a ser esmurrado por José Luiz, e na confusão Rodrigues Palma sacou seu revolver e deu coronhadas em Genilto Nogueira, com quem estava se estranhando desde que entrou no ginásio. Genilto perdeu as forças e caiu no chão, sendo chutado nas costelas por Garcia Neto. O empresário Haddad puxou Coutinho e o retirou para tomar ar puro fora do ginásio.

A confusão acabou virando inquérito policial, a cargo do delegado João Capetinga, e com o acompanhamento do Ministério Público (chamado na época de Procuradoria Geral do Estado) porque o episódio foi entendido como ameaça à sociedade. O delegado não perdeu tempo e em menos de um mês encaminhou o inquérito para a Justiça.

Wilson Coutinho garantiu que não queria matar Antero, e sim acabar com a briga. Os tiros foram para o alto. Segundo ele, “havia 16 pessoas ao redor de Antero e naturalmente alguma delas seria atingida”. Sem contar que era bom atirador, e como no ginásio só havia uma porta aberta, era só mirar na porta para acertar em Antero como mosca. E mesmo que fosse para matar Antero, nem precisaria do revólver: “Todos sabem que sou faixa preta em caratê e o mataria apenas com as mãos”.

O que aconteceu no ginásio foi apenas uma desinteligência normal nas convenções partidárias. Segundo Coutinho era Antero quem incorria em crime de injuria e difamação ao espalhar a mentira de tentativa de assassinato. Além disso, os “comunistas” (os membros “autênticos” do PMDB) estariam fazendo jogo sujo ao ameaçar de morte sua família com telefonemas anônimos.

O drama atingiu a família de Coutinho. Pouco depois o seu irmão William foi morto com um tiro no ouvido. O irmão de Coutinho estava andando armado com um revólver calibre 38. Porém a conclusão do delegado Márcio Pieroni foi que não houve homicídio, ou atentado político. A irmã de Coutinho estava na casa, onde ocorreu a morte, e saiu quando o irmão começou a brigar com a esposa, considerada muito agressiva pela família. A polícia fechou o caso como suicídio.

O grupo de Garcia Neto desembargou na campanha de Dante de Oliveira através de Rodrigues Palma, que visaria o Senado Federal

O velho Severino teve sua casa arrombada e todos os seus móveis quebrados e atirados ao chão, sendo que nada teria sido furtado da residência.

A vida política do vereador Coutinho seguia naturalmente, e tudo girava em torno da prefeitura. A ideia inicial do grupo de Garcia Neto era Rodrigues Palma como prefeito, ou até a indicação da vice-prefeitura. O grupo foi rechaçado e houve a tentativa de isolá-lo dentro do PMDB por Dante de Oliveira. O que Garcia Neto tinha no partido era o apoio do grupo do deputado federal Gilson de Barros (com Osvaldo Sobrinho, Kazuho Sano e Luiz Soares) para contornar a situação e forçar o apoio do presidente do diretório estadual Louremberg Rocha.

A força política que dominava o cenário estadual era o PDS do governado Júlio Campos (“Julinho”). Contra o PDS havia o PDT comandado por Mário Márcio Torres, e o ex-governador Frederico Campos, e eles esperavam o apoio do PT para estadual. Enquanto isso Louremberg buscava a coesão do PMDB contra seu principal adversário que era o PDS.

O PDS então lançou para prefeitura o reitor da UFMT Gabriel Novis Neves (“Dr. Gabriel”) na chapa chamada “União Popular” contra o “Dante Já”. Falando em Dante, o presidente Wilson Coutinho exigiu apoio ao Dr. Gabriel e demitiu os servidores que estavam fazendo campanha para Dante. O que Coutinho queria, o PMDB achou impossível que era aliança com o PDS.

O PMDB se dividiu na campanha. O deputado federal Gilson de Barros ficou ao lado de Garcia Neto para não apoiar Dante de Oliveira, e negou composição com o PDS por que aliança com o governador Júlio Campos iria afundar o PMDB. Ou seja, metade do partido iria cruzar os braços na campanha contra o candidato do PDS o Dr. Gabriel.

A decisão de Gilson de Barros foi devido a falta de dialogo com Dante de Oliveira. A fama de genioso de Gilson já era famosa, e isso assustava Dante, que nunca foi de partir para confrontos. Além de tudo o presidente Sarney (PMDB) não atendeu seus pedidos de indicações políticas para cargos públicos em Mato Grosso preferindo acatar pedidos de Fernando Lyra (PMDB/PE), que pedia votos para Dante de Oliveira.

A irritação de Gilson era muito grande com seus correligionários. Ainda assim lançou um desafio para Dante: “Quer falar comigo é só escolher as armas”, para depois acrescentar: “Posso recebê-lo inclusive com flores, pois não são com flores que se recebem os defuntos?”.

O PDT entrou na campanha do Dr. Gabriel através do presidente do diretório municipal Itamar Perenha. O capitão Perenha, do Exército Brasileiro, dizia que nomes como Dr. Gabriel, e do seu vice-prefeito Silva Freire, eram os melhores para Cuiabá. Isso porque o PMDB nacional era visto como mais um engodo gerado pela Ditadura Militar.

O grupo de Garcia Neto desembargou na campanha de Dante de Oliveira através de Rodrigues Palma, que visaria o Senado Federal

O vereador Coutinho concordava com Perenha porque “nomes como Carlos Bezerra não são limpos, e menos ainda Vuolo e quem o acompanha, que sempre mamou nas tetas do antigo governo e agora querem desfilar de oposicionista”. Wilson Coutinho sempre foi pró Governo Militar e anticomunista até a medula. Ideologicamente parou nos anos 50.

Wilson Coutinho não espera o que veio em seguida. O grupo de Garcia Neto desembargou na campanha de Dante de Oliveira através de Rodrigues Palma, que visaria o Senado Federal. O grupo vinha articulando com Coutinho a entrada na Frente Liberal, o PFL, do deputado estadual Pedro Lima e federal Bento Porto (além de Aureliano Chaves e Marco Maciel).

O deputado federal Gilson de Barros pulou para o PDT, junto com o Padre Pombo para apoiar a candidatura do Dr. Gabriel, do PDS. Wilson Coutinho, que tinha se filiado ao PFL acabou parando no PDT. Meses depois Padre Pombo e Coutinho saíram do PDT para apoiar a candidatura de Frederico Campos contra Carlos Bezerra na campanha ao governo de 1987.

Dante de Oliveira foi eleito prefeito de Cuiabá. A eleição contava com 108.368 eleitores, e Dante obteve 50.732 votos contra 28.167 de Gabriel. Coutinho acabou presidindo a solenidade de posse de Dante de Oliveira no dia 1º de janeiro de 1986.

O caso da tentativa de assassinato de 1985 foi a julgamento quinze anos depois, e mesmo com o esforço do promotor de Justiça Veras Gadelha, acabou prevalecendo a tese do defensor público Márcio Dorileo, e a mesma de Coutinho à época do fato, de que nunca teve a intenção de matar Antero Paes de Barros e apenas atirou para o alto pra acabar com a briga generalizada. O processo foi arquivado


Fonte: MUVUCA POPULAR

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