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A grande onda de desonestidade intelectual

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A grande onda de desonestidade intelectual
Fernando Rodrigues de Almeida

Eu vivo em tempos sombrios, em que nós, povo, não pudemos ser bons amigos. Mas quando chegar o tempo em que o homem seja amigo do homem pensem em mim com um pouco de compreensão.

E, obviamente, como o novo arbítrio desses tempos, ao dizer as frases acima uso palavras de Bertold Brecht e finjo serem minhas.

Apenas finjo. Não o referencio, não me preocupo com o pudor de contextualizar, tampouco com o problema ali atribuído aos que virão depois de nós. Como em um plágio, um delito, uma malícia a priori e universal, me convenço de que uso covardemente palavras tão belas e lúgubres de um artista político não apenas para que falem por mim, mas para que que eu fale com elas.

Nada me impediria de falar de forma ainda mais contundente, poderia eu dizer “Wirklich, ich lebe in finsteren Zeiten!”, estaria quase predicando. Afinal, seria a autoridade do meu discurso com algo que falo para ninguém, mas obrigo a todos a respeitarem, pois transmitiria a legitimidade, a validade, o pressuposto do saber. Vejam, elementos jurídicos, mas sou eu algo parecido com a lei?

Nada é parecido com a lei e isso é claro, a lei não existe por si, é pressuposto, é hipótese, mas é assustador o quanto o discurso pode ser pressuposto e violento quanto a lei. Porém, ao mesmo tempo, o direito não é um conceito de verdade, ele apenas deve ser verdade, é um ato de vontade, pressupõe-se a liberdade para a existência do direito. E quanto ao discurso, não tenho dúvidas, esse se implica como uma vontade de verdade.

Talvez, a vontade pela verdade seja tão forte que sobreponha a vontade da justiça, claro, pois de um lado temos um elemento maniqueísta e de outro um conceito aberto, mas não vejo como é possível pressupor uma verdade. Isso talvez seja o cerne da desonestidade.

Não é como sustentar ignorância ou desconhecimento, ao contrario é obter verdade pela desonestidade de justificar intelectualmente um absurdo. E esses são nosso tempos sombrios.

 

Ouço, todos os dias, a desonestidade intelectual que, com toda sua postura de melindre, inverte o discurso e desqualifica a qualquer forma que esteja em seu caminho.

 

Nas ruas, nas redes sociais, nos bancos acadêmicos, nas instituições, a desonestidade se tornou uma batalha, quem tem a força e o poder de fazer do discurso desonesto o mais plausível.

Ouço nas ruas que o Brasil precisa dar o direito de matar ao homem bom e justo; ouço nas praças que a justiça deve ser feita independentemente de seus meios; ouço nos mercados que a corrupção é institucional e que o que querem são todos presos; ouço nos almoços que a democracia tem que acabar; ouço dos meus amigos que os militares tem que entrar.

Ouço nas escolas que estudar ciências humanas forma alienados; ouço nas salas de aula que o ensino deve ser neutro; vejo nos questionamentos que o argumento apresentado não é de esquerda nem de direita, mas “para a frente”; ouço da sociedade polarizada que os atos políticos são irritantes.

Ouço nas empresas que os trabalhadores têm muitos direitos; ouço nos refeitórios que para subir na vida é só acordar cedo; ouço nos cubículos que todos tem as mesmas oportunidades; ouço no cafezinho que todos apoiamos a relativização da constituição.

Ouço nas igrejas que Jesus apoiou a propriedade privada; ouço nos cultos que devemos combater o pensamento político do outro; ouço que a sacralidade depende do meu ódio.

Ouço nas universidades que o conservadorismo é liberal; ouço dos acadêmicos que a idade média era um tempo de liberdades intelectuais; ouço nos grupos de pesquisa que a escola austríaca é a nova Frankfurt; ouço que esse, aquele e aquele outro são de esquerda, que Lula, Keynes, Gramsci, Duvivier, Papa Francisco, Napoleão, Julio Cesar, Hitler e Stalin são todos iguais, porque são marxistas. Ouço que o marxismo quer matar as famílias; ouço que o Nazismo é socialista.

Ouço no judiciário que para casos excepcionais devem ser tomadas medidas excepcionais; ouço nos gabinetes que quem precisa provar é o réu; ouço nos escritórios que a justiça é morosa e por isso está certo reinterpretar livremente a lei; leio nos pareceres que o tipo penal não precisa ser totalmente atingido para ser imputado; vejo nos noticiários que a prova pode ser pressuposta e que o direito penal tem que ser a primus ratio, leio nas declarações que os conceitos jurídicos podem ser substituídos por vontade social; ouço o guardião da constituição dizer que apesar de estar escrito não é assim que tem quer ler.

O que ouço parece que de tão absurdo e irreal talvez eu possa acreditar; o que eu ouço parece tão invertido da realidade que eu posso criar uma nova realidade. Eu li sobre algumas coisas mas alguém me disse que mesmo sem ler é possível chegar a uma lógica só pela experiência tátil. O sol está lá fora, mas eu não preciso acreditar nele se eu não quiser.

Eu posso argumentar horas, com livros, autores, história, mas e daí se uma resposta como “mimimi” pode, na hora, combater tudo o que eu digo; mas para que eu preciso ler se eu posso simplesmente ser desonesto na minha intelectualidade, criar factoides escalafobéticos e impor isso como uma verdade pressuposta.

Estou confuso sobre o que é a intelectualidade, a informação, a política. Não se trata mais de um estado de busca pelo conhecimento, mas sim um estado de imposição de razão. São tempos sombrios de fato.

Se assim é a verdade, o direito ainda está ai para que? a política institucional está aí para que? Se é no Estado de Exceção em que vivemos, porque ainda a preocupação em tentar fundamentar a verdade como lei?

Bem, acho que é porque ainda somos desonestos quanto a nossa própria normalidade. Mas mais uma vez, apenas usei sem pudor as palavras de Walter Benjamin, mas sem culpa, porque ser desonesto intelectualmente é a nova oitava tese sobre o conceito de história, ou seja, é a regra geral.

Fernando Rodrigues de Almeida é Advogado. ​​​​​

O que dizem sobre isso?

  1. Parabéns! Exprimiu muito bem a imensa sensação de desconforto que tem atormentado as pessoas com um mínimo de senso autocrítico nos tempos das chamadas "pós-verdades" (seja lá o que isso for, de verdade). Tá muito difícil ser gente (no sentido de ser humano que reconhece o outro como semelhante) hoje em dia.

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