Fávaro é campeão de emendas enviadas a prefeito aliado
Folha de S. Paulo
O ministro Carlos Fávaro (PSD), que comanda a pasta da Agricultura e Pecuária no Governo Lula (PT), foi o parlamentar que mais enviou emendas para beneficiar o município de um prefeito aliado reeleito nas últimas eleições, mostra levantamento da Folha de S.Paulo.
A reportagem analisou as emendas individuais recebidas por esse conjunto de cidades em 2023 e 2024.
Em apenas um ano, o senador licenciado enviou mais verbas a um correligionário reeleito do que qualquer outro parlamentar nos dois anos somados, em valores empenhados por habitante.
Fávaro, que é cotado para concorrer ao Governo de Mato Grosso em 2026, destinou R$ 29 milhões a Jangada (70 km ao Norte de Cuiabá), conhecida como a “capital do pastel”, em 2023. A cidade tem apenas 7.426 moradores e reelegeu em primeiro turno o prefeito Rogério Meira, também do PSD, com 53% dos votos.
No total, 98% dos recursos chegaram por meio de transferências especiais, as chamadas emendas Pix, que são consideradas de baixa transparência e caem diretamente no caixa da prefeitura, sem necessidade de vinculação a projetos específicos.
O valor equivale a R$ 3.956 por habitante, 46 vezes a média do país (R$ 85) e o dobro do segundo colocado, o ex-deputado Expedito Netto, atual presidente do PSD em Rondônia -que enviou R$ 1.940 por pessoa a São Felipe d’Oeste, onde o prefeito Ney da Paiol, do mesmo partido, se reelegeu com 75% dos votos.
A Folha de S.Paulo procurou o Ministério da Agricultura e a Prefeitura de Jangada por email, mensagens e ligações durante as últimas três semanas, mas não obteve resposta. A reportagem questionou por que o valor das emendas foi tão alto, por que elas foram enviadas via transferência especial e onde essas verbas foram aplicadas, entre outras perguntas.
Fávaro chegou a figurar entre os possíveis nomes envolvidos na reforma ministerial de Lula, com sua pasta cobiçada pelo centrão do deputado Arthur Lira (PP-AL) e em meio a uma sequência de embates com a Frente Parlamentar da Agropecuária. Seu trabalho, porém, é bem avaliado pelo petista, e sua saída agora é tida como improvável.
O volume de recursos enviado pelo hoje ministro a Jangada, a título de comparação, corresponde a 60% do orçamento previsto pelo município no ano passado: “Eu tive a honra de ser o segundo prefeito que mais conseguiu recursos no Brasil em emenda especial”, discursou Meira em sua posse.
As verbas viraram até caso de polícia. Em outubro de 2023, três meses após o empenho das emendas, o pai do prefeito, Edson Joel Meira, foi sequestrado em uma fazenda da região e dopado. O delegado responsável, Antenor Pimentel, disse então que a intenção do grupo era pedir como resgate os R$ 28 milhões recebidos em emendas -os suspeitos, que foram presos, não explicaram como o dinheiro seria transferido.
Especialistas em transparência destacam que enviar emendas a redutos eleitorais não é um problema em si, já que, em princípio, elas foram criadas para alcançar locais esquecidos pelo governo federal. O problema é um eventual uso eleitoral dessas verbas, para o qual já existem os fundos partidário e eleitoral.
A proximidade entre Fávaro e o prefeito de Jangada é pública. O ministro fez campanha para o aliado, compareceu a uma bateria de inaugurações na cidade viabilizadas com recursos federais e convidou o prefeito para seu aniversário em Cuiabá dez dias após sua reeleição.
“Dia especial com o nosso vice-presidente da República Geraldo Alckmin [PSB] e brilhante Ministro Carlos Fávaro, grandes personalidades políticas deste governo que ‘mais’ ajudou Jangada”, agradeceu Meira nas redes sociais ao publicar uma foto com ambos.
Fávaro tem um histórico de críticas pelo envio de verbas federais a redutos mato-grossenses aliados.
Em 2023, ano em que assumiu o cargo, o ministro priorizou sete cidades para a destinação das extintas emendas de relator, que foram consideradas inconstitucionais pelo STF em 2022 e transferidas em parte para os ministérios. O caso gerou reprimendas dentro do próprio governo.
Na época, o portal Metrópoles publicou que as estradas que seriam asfaltadas com esses recursos beneficiavam fazendas do empresário Eraí Maggi, conhecido como “barão da soja” e dono do grupo Bom Futuro, que também aparece na foto do aniversário do ministro.
O empresário é padrinho político de Fávaro junto ao seu primo Blairo Maggi, ex-governador e ex-ministro da Agricultura da gestão Michel Temer (MDB). Os primos foram os responsáveis por aproximar o atual ministro a Lula até sua indicação ao cargo.
Procurado, o grupo Bom Futuro afirmou que não se manifestaria por se tratar de assunto político ou pessoal de um dos acionistas. Na ocasião, tanto o empresário quanto o ministério afirmaram que o grupo planta em grande parte dos municípios de MT, portanto qualquer programa de rodovias no estado provavelmente abarcaria seus terrenos.
Jangada também recebeu uma quantia significativa de recursos via pasta da Agricultura em 2023, além dos R$ 29 milhões em emendas de Fávaro. A prefeitura de Rogério Meira ganhou mais R$ 23 milhões em um convênio firmado com o governo federal para a melhoria de estradas (com contrapartida de R$ 200 mil do município).
Um ano depois, Fávaro viajou à cidade para as inaugurações, a meses das eleições municipais que reelegeram o aliado.
“Ontem foi um ‘dia histórico’ para Jangada, pois pela PRIMEIRA vez recebemos um Ministro de Governo em nosso município”, postou o prefeito. “Fávaro é ‘gente da gente’, humilde, trabalhador, inteligente e muito carismático. Que Deus lhe abençoe profundamente meu amigo e agora CIDADÃO JANGADENSE.”
A última campanha também voltou a unir eleitoralmente Fávaro e o empresário Maggi. Na capital Cuiabá, o “barão da soja” apoiou a chapa do petista Lúdio Cabral, que tinha como candidata a vice Rafaela Fávaro (PSD), filha do ministro. A dupla, porém, perdeu para Abilio Brunini (PL).