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Segunda-feira, 18 de Novembro de 2019

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LIBERTAÇÃO

"Me vi no texto dele". Atletas LGBT comentam depoimento de Diego Hypolito

"Eu sou gay". A declaração de Diego Hypolito, em texto para a série Minha História do UOL Esporte, tomou as redes sociais e repercutiu em toda a imprensa nacional. Um dos maiores ginastas brasileiros falava, enfim, sobre algo que era discutido e especulado em bastidores há anos. Em seu depoimento, Diego esclareceu a motivação por ter escondido do público sua orientação sexual: auto-aceitação, medo de decepcionar a família e, principalmente, de colocar em risco a sustentabilidade de sua carreira. Ele afirma que teria perdido patrocinadores se tivesse feito a declaração em outro momento. Atletas que abriram o caminho para Diego se emocionaram com o texto do ginasta e relataram exper.

AFP PHOTO / FRANCK FIFE

Mayssa Pessoa, goleira da seleção brasileira de handebol

Eu me vi ali naquele texto dele. Não foi fácil para mim também. No Brasil, as pessoas são muito religiosas e preconceituosas, e muitas vezes elas são pessoas próximas a você. Eu não conseguia também falar para a minha mãe, olhar para ela e falar que eu era lésbica. Antes, eu não queria falar, porque eu não tinha certeza, não sabia o que era. Pensava que era uma coisa demoníaca. A gente vem de uma família com religião, então a gente começa a ter esses pensamentos. Você não tem certeza, não sabe o que pensar. Você pensa que é um monstro. Eu tive muito isso. Eu escondia porque tinha medo de mim mesma. Muita coisa que ele falou ali aconteceu comigo. Mesmo jogando na Europa, que é um lugar mais aberto, eu tinha medo dos clubes não me respeitarem, as pessoas. Aconteceu muita coisa ruim quando me abri. Foi um pouco como ele falou, eu também tive uma relação abusiva. Era muita pressão. Pessoas que estão ao teu lado e pressionam você a se abrir quando não está pronta. Aconteceu isso comigo quando eu estava nas Olimpíadas. Eu fui madrinha de um torneio internacional homossexual na França. E começou aí, em 2012. Eu vi ele falando da mãe dele. Foi a mesma coisa que aconteceu comigo. Eu falei com minha mãe no Facetime, mandei mensagem. Foi bem difícil para a minha família. Meu pai até que é mais aberto, mas minha mãe não entende. Sabe, mas não entende. É um pessoa católica, conservadora que vivia em igreja, então é bem difícil para ela aceitar isso. Perdi Natal também, Ano Novo por causa do clima chato que ficou. No começo eu ficava mal, pensava no que as pessoas iam pensar. Hoje em dia eu já não ligo mais, faço o que quero e como quero. Fico muito feliz por ele, que se abriu e está feliz hoje, sabendo quem ele é e que conquistou todas as coisas na vida dele profissionalmente, e que agora a vida pessoal dele agora está sendo completa. Ele passou por muita coisa, como a gente brasileiro no esporte passa. Ele é um vencedor, deu a volta por cima. As pessoas se escondem pelos mesmos medos que ele sentiu, que eu senti. Eu acredito que esse depoimento dele é bem especial, me tocou muito. Espero que as pessoas entendam e não julguem porque eu sou lésbica e ele é gay. A gente não pediu para que viesse ao mundo lésbica ou gay. Acontece. Tudo é sobre o amor. É como uma pessoa hétero. Os héteros amam, os gays amam. Para mim, isso é o que vale.

 

Satiro Sodre/SSPress

Ian Matos, atleta olímpico do salto ornamental

Eu vi no Twitter quando o texto foi postado, estava num ônibus voltando para casa. Senti um orgulho enorme por esse passo que o Diego deu. Ele é um dos nossos maiores atletas, um dos poucos que é medalhista olímpico e o fato dele somente agora poder assumir quem é e pelo depoimento, mostra o quanto é difícil ser uma pessoa LGBT. Eu vi muita gente comentando que não ficaram chocados com a notícia, porque todos já sabiam da sexualidade dele, mas parece que muita gente não leu o texto, só a chamada da matéria. É no depoimento do Diego que a gente tem que perceber que cada indivíduo tem um tempo, é preciso todo um processo de aceitação, e o medo da rejeição é muito grande. O depoimento do Diego é importante para que as pessoas que acompanham o esporte possam olhar pra nós atletas como seres humanos semelhantes, não somos máquinas, e que às vezes os resultados não vem por inúmeros motivos, os quais muita gente desconhece. O depoimento dele é importante para mostrar que, por trás de qualquer sonho, você tem que ter gente que te dê suporte e torna o esporte brasileiro um meio mais fraterno.

 

Denys Flores/Divulgação

Izzy Cerullo, co-capitã da seleção brasileira de rúgbi

Fiquei muito feliz por ele, porque eu sei que para se assumir tão publicamente é uma conquista. Você precisa estar em um lugar seguro, precisa se sentir bem e também estar num momento em que você deixou de sentir medo das consequências. Então por ele ser uma figura tão pública, esse foi um momento muito importante. Consigo imaginar um pouco do por trás de uma coisa assim. Fiquei muito feliz por ele, porque significa muita coisa. Aí, quando comecei a perceber as reações que estavam saindo disso, fui perceber que isso ainda, sim, é notícia. Para o esporte brasileiro é também um momento muito significativo, porque é mais um passo na direção da visibilidade e da inclusão e mais um passo para mostrar para o público como é importante fazer uma declaração assim, porque inclui patrocinadores, pessoas vinculadas à marca do Diego. Isso é um passo na direção certa, de que talvez em algum momento isso não vai ser mais notícia. Em 2016 foi, continua sendo hoje, mas eu acho que a gente está indo na direção certa.

 

Reprodução/Instagram

Naiane Rios, levantadora do Sesi-Bauru

 

O que o Diego fez foi como segurar a mão de muitas pessoas e em seguida dar um abraço aqueles que te fazem sentir em casa. Foi a explicação perfeita de que nossas condições não são escolhas. Aliás, a única escolha que temos que fazer é a de permanecer ou não no caminho que o sistema quer que estejamos. Caminho esse forçado por uma sociedade que te pune pelo simples fato de ser quem se é. Em meio a tudo isso fica uma lição, a de que, não importa o caminho, se houver amor, tudo fica bem. Obrigada Diego, por abrir seu coração, medalha nenhuma paga a liberdade de termos autonomia sobre nossa própria vida. Nenhum de nós, jamais, estará sozinho.

Julia Vasconcelos, atleta olímpica recém-aposentada do taekwondo

Issei Kato/Reuters

Assim que eu li a matéria, até compartilhei no meu Facebook e escrevi dizendo que independente do atleta ser de alto nível ou não, estar em evidência ou não, ser medalhista olímpico ou não, a sexualidade não deve sobressair a competência, o caráter e a humildade da pessoa. Eu acho um pouco irrelevante você colocar a sua sexualidade à frente do seu profissionalismo. Eu sei que existem e eu conheço atletas que sofreram muito nessa questão de conseguir ou não sair do armário, é uma questão bem difícil. Não é por que foi fácil para mim, que significa que vai ser fácil para o outro. Uma coisa muito importante que ele falou foi: "todo mundo já sabia", por que todo mundo já sabia? Porque as pessoas deduzem, "ah, ele tem jeito". Mas nunca foi dito da boca dele. Eu passei por isso quando fui anunciar a minha aposentadoria. Eu não tinha dito nada, mas eu vi pessoas especulando sobre. Achei de extrema importância a atitude que ele teve. Serviu muito para esclarecer justamente esse fato das pessoas não ficarem especulando, falando o que elas não sabem. Nunca vi ninguém deixar de torcer por ele por ser homossexual, e acho que ninguém vai deixar de gostar dele, de admirar as conquistas dele por ter se declarado. Mas eu sei que isso não funciona em todos os esportes ou em todos os nichos. Achei de extrema importância o que ele falou sobre evitar que as pessoas fiquem em depressão, ajudar as pessoas a sair do armário.

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