1920: Marechal Rondon descobre a corrupção em Mato Grosso  | MUVUCA POPULAR

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Luta dos povos indígenas (Parte 2)

1920: Marechal Rondon descobre a corrupção em Mato Grosso

Padres e políticos usurpavam verba federal

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O Padre José Tannhuber havia sido morto de forma brutal após ter rezado sua última missa na manhã do domingo de 29 de agosto de 1920. O emaranhado de acontecimentos que se seguiu tornou Cuiabá e cercanias um lugar de muitos conflitos, especialmente por terras.

O coordenador dos salesianos Dom Malan foi acusado de pensar apenas em dinheiro. O padre teria sofrido censura publicada do Bispo Carlos Luís d´Armour porque “vendeu” uma festa religiosa em benefício de um comerciante de Cuiabá, ou seja, o padre alterou o roteiro da festa e retirou um santo do centro da festividade para colocar em evidência o seu patrocinador. Além disso, era um bajulador do governador Manuel José Murtinho, que subsidiou a vinda dos salesianos para Cuiabá, até que seu inimigo político Antônio Paes de Barros (“Totó Paes”) assumiu o poder. A partir daí seu amigo passou a ser Totó Paes.

O diretor que depois se tornaria o 'Marechal Rodon', cultuado eternamente por seus feitos de desbrabamento, também não passou impune. Houve a denúncia de que seria dono de dezenas de propriedades urbanas no Rio de Janeiro, sem contar as áreas rurais em Mato Grosso, todos registrados em cartório de imóveis de Cáceres. As denúncias jogadas nos jornais contra os dois foram se acabando com o tempo. Dom Malan virou bispo em 1916, e Rondon virou herói nacional no imaginário popular ainda nos anos 20. A imagem deles nunca mais foi questionada.

Rondon, o experimentado homem da ciência e da ação, aplaudido em todo o mundo, tinha sangue bororo, terena e guató, e a sua responsabilidade no SPI eram os índios e não a bajulação para encobrir as falhas que foram encontradas

O problema dos salesianos em 1912 é que receberam relatórios do SPI com recomendações a serem feitas. O que o relatório indicava foi ignorado por Dom Malan, e o próprio Rondon é quem faria a inspeção. A tendência era a de que Rondon faria cortes nos pedidos de dinheiro dos salesianos. O SPI não fazia o trabalho dos padres, porém agia como regulador das verbas públicas. A partir daquele ano Dom Malan teria dificuldades em contar com dinheiro vivo do governo federal.

A inspeção de Rondon foi acompanhada por Malan, desde Rondonópolis passando por Palmeiras (Santo Antônio do Leverger, praticamente Primavera do Leste) até Barra do Garças, em Merure, onde foram recepcionados pela banda de música da escola, e composta pelos índios, e por um banquete com a produção local, incluído as uvas e vinho. Dom Malan antes que terminasse a apresentação perguntou se Rondon pagaria a subvenção (dinheiro federal). Rondon disse “não pago”. O padre então se levantou e cancelou a festa, e a comida.

O padre foi caínha, e isso não abalou Rondon, o experimentado homem da ciência e da ação, aplaudido em todo o mundo, tinha sangue bororo, terena e guató, e a sua responsabilidade no SPI eram os índios e não a bajulação para encobrir as falhas que foram encontradas. As missões tinha transformado homens orgulhosos em homens tristes e incapazes. O padre disse que o trabalho era remunerado, e os valores variavam de R$50,00 até R$450,00, porém o pagamento era feito em fichas. O que Rondon observou é que alguns índios falsificavam as fichas. Homens honrados foram transformados em fraudadores.

Os padres foram acusados de vestirem os índios para as visitas, e depois retiraram as roupas novas. Rondon soube que um aparelho de roupa (camisa, calça, blazer) eram vendidos pelo equivalente a R$1.150,00 sendo que as roupas eram doações do governo federal. Um machado era vendido a R$2,6 mil. O que era produzido também não era compartilhado, as frutas, em especial as uvas, nunca eram provadas.

O pior é que os padres doavam um terreno de 150 m2 para os índios construírem suas casas, e criarem galinhas e uma horta no quintal. O tamanho dos terrenos foi considerado ridículo porque o cálculo de Rondon era que Mato Grosso inteiro poderia ter uma base populacional de 200 milhões de pessoas. Isso sem contar que os índios, que viviam livres e ocupavam grandes espaços, porque as terras eram deles, não conseguiriam se adaptar ao sistema dos padres.

Rondon tinha o pensamento de que a educação, e a conseqüente integração do índio à sociedade do branco, ocorreriam apenas na quarta geração ou talvez no século XXI. O próprio Rondon era da quarta geração de índios. Mas para os salesianos o processo poderia ser mais rápido desde que se separassem as crianças dos adultos. As crianças iriam para a sala de aula, com foco nas letras, e os adultos para o aprendizado prática. 

A vida de Rondon o colocou em discordância porque para ele as crianças eram parte dos adultos e todos uma só família, ou seja, a coletividade era mais importante que o coletivo, e todas as alegrias e riquezas eram compartilhadas e todas as tristezas e perdas também eram coletivas. O pensamento do positivista Rondon nesse sentido seria “comunista” e o do religioso católico Malan seria “capitalista”. O que é uma inversão entre as duas formas de pensar.

Em jogo estava uma população indígena de 30 mil indivíduos que precisaria ser acolhida. E o que os padres ofereciam era a educação continuada, ou seja, eles precisavam de uma estrutura física para trabalhar e a entrada corrente de dinheiro para continuar a expansão. O que Dom Malan fez já que Rondon iria reduzir a entrada de dinheiro direto do Tesouro foi buscar doações de bens junto ao governo e doações de particulares. Dom Malan sempre manteve contato com a mídia no Rio de Janeiro e em Turim (sede dos salesianos) e todos gostavam das histórias sobre os índios de Mato Grosso.

O menino Akirio Bororo Keggeu foi separado dos pais e batizado como Thiago Marques Aipobureu, sendo educado pelos padres em Cuiabá, onde formou e logo depois começou a viajar com Dom Malan, que o apresentava como um caso comum de sucesso da educação salesiana. O menino chegou a viajar para Itália com os padres, e apesar dos protestos no Rio de Janeiro, porque não tinha autorização legal para a viagem, acabou morando dois anos no exterior. Dom Malan o levou e o deixou com uma família européia onde aprimoraria seus estudos.

Mas Thiago sentiu saudades de casa, e retornou para Cuiabá, onde não ficou. Acabou indo para as missões do leste, porém não queria nem ser professor, e nem técnico. O que Thiago queria era ser índio igual se lembrava quando criança. O sonho não se realizou porque já era impossível. O vínculo familiar, entre o clã e a tribo, havia se rompido e todas as suas lembranças e sonhos foram frustrados. A sua vida foi tão triste que sua esposa o abandonou, e apenas voltou porque um padre intermediou o reencontro.

Dom Malan era um bajulador do governador Manuel José Murtinho, que subsidiou a vinda dos salesianos para Cuiabá, até que seu inimigo político Antônio Paes de Barros (“Totó Paes”)

O problema de Thiago poderia ser existencial, mas não sabia construir e manter uma casa, ou cuidar da família porque também não sabia caçar e lidar com as frustrações e pesadelos. A chamada Alma Mater, ou essência transformadora do seu íntimo, acabou se perdendo, e seus parentes e amigos não conseguiram restaurar o que havia perdido.

A discussão de trabalho, e filosófica de Rondon estava correta. O relatório de inspeção registrava que os índios das colônias construíam casas muito ruins, e eles se alimentavam muito mal também. O que eles não tinham era a cooperação com os outros, o “muxirum”.

A missão salesiana prosseguiu na região leste de Mato Grosso, e quando os problemas apresentados aos padres pareciam equilibrados foram abalados em 1976 com a morte do Padre Rodolfo Lunkenbein, e do índio bororo Simão Koge Ekudugodu, na região do Merure (o principal projeto salesiano) durante o governo de Garcia Neto. A morte do Padre Lunkebein foi provocada pela venda de terras de índios para empreendimentos agropecuários que explodiram em Barra do Garças após incentivos fiscais promovidos pelo governo federal.
(Continua...)

Leia também:
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A morte do padre Tannhuber e a luta dos povos indígenas em MT (Parte 1)

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COMENTÁRIOS

(2) COMENTÁRIOS

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joao da silva - 18-02-2019 16:27:19

Agora sim vi utilidade nesse site parabéns, um artigo para ser lido por todos cuiabanos ou não.

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Maurécio - 17-02-2019 13:08:05

E acreditando na camoanha do Bozo que pregava q foi o PT que inventou a corrupção!

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2 comentários