A "chacina do Merure" (Parte 1): Governo Fernando Corrêa e Garcia Neto | MUVUCA POPULAR

Terça-feira, 12 de Novembro de 2019

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Resgate histórico

A "chacina do Merure" (Parte 1): Governo Fernando Corrêa e Garcia Neto

Padres que catequizavam índios eram considerados comunistas

A “Chacina do Merure” ocorreu no dia 15 de julho de 1976 as 11h00. O Padre Rodolfo Lunkenbein havia rezado uma missa de ação de graças no dia anterior e isso enfureceu os assassinos. A missa marcava o início do trabalho de demarcação da Terra Indígena do Merure, que havia sido doada pelo governo estadual cinquenta e cinco anos antes e reconhecida pelo governo federal através do Estatuto do Índio, publicada em dezembro de 1973.

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eeO Padre Rodolfo dirigia a Missão Sagrado Coração (Merure) com o mesmo propósito do início do século XX, que era o de incorporar o índio à civilização do branco. A intenção dos salesianos tinha a concordância do então diretor do Serviço de Proteção ao Índio, o futuro Marechal Rondon, porém o método dos padres era criticado por Rondon.

Os salesianos separavam as gerações para acelerar o processo de alfabetização e aprendizado técnico, e então os pais e avós desenvolviam uma atividade e os filhos outros. O Bispo Malan apresentava o jovem bororo Tiago Marques Aipobureu como um caso de sucesso do trabalho dos salesianos, e o apresentou em 1912 no Rio de Janeiro e na Itália, onde foi

Marechal Rondon discordava porque o universo dos índios é construído pelo contato direto entre as gerações

morar para completar sua educação.

O Marechal Rondon discordava porque o universo dos índios é construído pelo contato direto entre as gerações, e a educação completa seria possível apenas em três gerações, ou seja, apenas no final do século XX. O mesmo Tiago Aipobureu mostrou que Rondon estava certo. O então professor Tiago desistiu da vida civilizada e retornou para sua família no sertão mato-grossense, porém não conseguiu ser feliz, nem entre os brancos, ou entre os índios. O fracasso o acompanhou o resto da vida.

O pensamento dos padres havia mudado. A própria Igreja Católica mudou com o Concílio Vaticano II, e uma das mudanças mais aparentes foi a liturgia da missa, em que os padres rezavam de frente para os fiéis, e em sua língua, abandonando o latim. O 2º Concílio Católico foi muito mais profundo, mas bastou essa pequena alteração para provocar a ira dos fiéis mais ricos que acusaram o Papa de ser comunista (o Concílio foi para inverter a lógica dos fiéis que estava muito materialista)

O Padre Rodolfo estava incomodado com a apatia e o alcoolismo dos índios bororos. A venda de bebidas era proibida, mas sua venda começou a ser fiscalizada após a morte de Manoelito Rodrigues, em 1974, pelo dono de bar Gonzaquinha. O bar, ou venda de secos e molhados, em beira de estrada (bolicho) não deveria estar na reserva indígena. Mas as terras começaram a ser invadidas em uma escalada iniciada no governo de Fernando Correa da Costa.

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O governo Fernando Correa da Costa encontrou na venda de terras devolutas fonte de renda para os cofres públicos. O problema é que as terras do Merure já tinham donos, e mesmo assim foram vendidas em uma escalada que começou em 1951 e terminou em 1966 no governo Pedro Pedrossian. O estrago estava feito. Segundo o governador Garcia Neto, que quase sofreu impeachment devido a “Chacina do Merure” a única forma de honrar os títulos de posse seria anexando “duas bolívias”.

A “indústria do grilo” surgiu forte em Mato Grosso. A fraude mais comum era o cartório emitir certidões atestando o registro da propriedade no livro, e depois o livro se extraviar, ou pegar fogo

As vendas descontroladas do governo também fomentaram fraudes nos cartórios. A “indústria do grilo” surgiu forte em Mato Grosso. A fraude mais comum era o cartório emitir certidões atestando o registro da propriedade no livro, e depois o livro se extraviar, ou pegar fogo. O cartório também poderia registrar as terras para um cidadão fantasma que as repassava para um cidadão “de boa fé”, e que depois usava pistoleiros para expulsar os outros posseiros da área e se legitimar como dono de fato, e de direito.

Os próprios padres foram deixando os não índios entrarem e se acomodaram nas terras. Até mesmo o ex-diretor da Missão, o Padre Bruno Mariano, vendeu 1,5 mil hectares em 1964 para o cidadão Leônidas Pereira Lima. A explicação do padre é que a venda foi feita em área no limite da Reserva, e para uma pessoa amiga, para usar o dinheiro na Missão.

O principal líder dos invasores era João Mineiro, que contava com a demora do governo para fazer a demarcação

A convivência entre invasores e índios se manteve estável até o anúncio do Estatuto do Índio. A partir desse momento quem tinha títulos de terras da Reserva as dividiram em lotes menores e as passaram adiante. O cidadão Agostinho David de Moraes comprou terras do governo em 1958, e em 1973 vendeu três lotes no total de 1,5 mil hectares para João Marques de Oliveira (“João Mineiro”), que abriu a Fazenda Alto Boqueirão.

Segundo o Estatuto do Índio o governo federal não iria indenizar ninguém que ocupasse terras indígenas, ou seja, os invasores que se apresentavam como produtores rurais deveriam sair com uma mão na frente e outra atrás. A nova lei provocou uma segunda escalada de invasores que tinham em mãos títulos desmembrados das primeiras vendas do governo ou fraudados, e também a troca da exploração agrícola, em que se mudou as lavouras pela criação de gado.

O principal líder dos invasores era João Mineiro, que contava com a demora do governo para fazer a demarcação. Mas em maio de 1974 um helicóptero sobrevoou a sua fazenda, no córrego Barreiros, e ele foi falar com o Padre Rodolfo, que também era professor dos seus filhos, bem como de todos os índios e não índios (invasores). O Padre confirmou que era um levantamento preliminar para o início da demarcação.

João Mineiro desistiu da lavoura de 150 hectares de arroz e 20 hectares de banana para criar e engordar três mil cabeças de gado, financiados pelo banco. O gado era dinheiro vivo, e se os invasores fossem tocados eles conseguiriam se capitalizar mais rapidamente. Os índios não gostaram. Os supostos fazendeiros não tinham manejo com o gado, apenas os soltavam nas pastagens, e de lá partiam para as roças dos índios.

O criador José Davi foi até a delegacia de Barra do Garças prestar queixa contra os bororos que teriam roubado seis bois e três cavalos da sua propriedade. O delegado mandou chamar o Padre Rodolfo, e a situação foi esclarecida porque o dono da roça não roubou, ou abateu os animais como diziam os boatos. O gado foi devolvido com a promessa de que não iriam mais invadir as roças (a promessa nunca foi cumprida).

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O líder dos invasores começou com as queixas na polícia anos antes alegando que os índios haviam furtado trinta sacos de arroz em casca da sua lavoura. O que não conseguiu demonstrar porque nenhum índio foi visto carregando sacos de arroz por quilômetros de distância. Mas virou rotina o Padre Rodolfo ter que se explicar na delegacia todo o tempo, e então os salesianos passaram uma procuração para o Padre Firmo, de Cuiabá, ser o responsável pelos assuntos policiais. Acabaram os boletins de ocorrência.

Virou rotina o Padre Rodolfo ter que se explicar na delegacia todo o tempo, e então os salesianos passaram uma procuração para o Padre Firmo, de Cuiabá

 

O processo de demarcação do governo federal estava ficando mais rápido do que o esperado. A Fundação Nacional do Índio (Funai) havia levado dois anos apenas para fazer a licitação do serviço de agrimensura, e com o apoio dos políticos correligionários (Arena) o processo deveria ser travado por mais cinquenta anos. Mas o Padre Rodolfo Lunkenbein e o seu vice-diretor Padre Gonçalo Alberto Ochoa Camargo estavam determinados a manter as coisas fluindo para garantir a paz dos índios bororos e xavantes.

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COMENTÁRIOS

(2) COMENTÁRIOS

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Janine - 04-03-2019 10:49:42

ótima leitura nessa segunda do feriado

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Tupiniquim - 03-03-2019 16:41:35

Gostei da reportagem, creio que pode dar inicio a reflexão dos falastrão, se bem que são poucos as pessoas que tem interesse de ver a verdade como ela é...

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2 comentários