Aniversário de 250 anos: O dia que Cuiabá teve dois prefeitos | MUVUCA POPULAR

Domingo, 15 de Setembro de 2019

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Resgate histórico

Aniversário de 250 anos: O dia que Cuiabá teve dois prefeitos

Governador demitiu o prefeito por atraso nas obras de calçamento das ruas


Muvuca Popular

O prefeito Frederico Carlos Soares Campos foi demitido as 13h30 do dia 12 de fevereiro de 1969 devido a bloquetes. A demissão gerou uma crise política única no Brasil porque resultou em dois prefeitos simultâneos para a Cuiabá: Bento Lobo e Valdevino Amorim. O início do problema foi que o governador Pedro Pedrossian resolveu trocar os paralelepípedos das ruas de Cuiabá por blokretes.

O governador começou a troca como parte da comemoração dos 250 anos de Cuiabá. O calçamento das ruas cuiabanas não seria mais com paralelepípedos (retangular) e sim de bloquetes (sextavados). A associação de fabricantes de cimento recomendava o uso do novo sistema para as ruas brasileiras desde os anos 50, sem muito sucesso, mas em Mato Grosso as coisas poderiam ser diferentes.

O pacote de obras a ser entregue em 8 de abril de 1969 teria como destaque o novo calçamento das principais ruas de Cuiabá. O governador pretendia também inaugurar a nova estação de água que atenderia toda a população cuiabana, a reforma da Praça do Rosário, a reforma da Praça do Aeroporto Marechal Rondon, incluído o lago artificial, a reforma da Ponte Julio Muller, a reforma de 40 km da rede elétrica e a abertura de 50 leitos para o hospital público.

A cereja do bolo seria a assinatura do edital de concorrência pública para construção da UFMT. Isso porque os cuiabanos se ressentiam pelo inicio das obras do que seria hoje a UFMS. O governador não se sentia à vontade em Cuiabá. Os seus filhos estudavam em Campo Grande, e era na região sul que estava a sua base eleitoral. Eleito em 1966 ao vencer outro sul-mato-grossense, a sua posição política dependia totalmente da articulação e proteção do senador Filinto Müller.

O senador não apenas foi responsável pela sua vitória como por sua governabilidade, e também conseguiu arquivar o processo de demissão de um caso de corrupção ocorrida quando ocupava o cargo de superintendente da estrada de ferro em Bauru, e que estava nas mãos do presidente da República. Isso não apenas salvou o seu governo como a sua própria reputação pessoal.

A independência em relação ao senador Filinto Müller, que estava muito próximo de Frederico Campos, e o desejo de formar o seu próprio grupo para sobrevivência política, o levaram a demitir o prefeito de Cuiabá as vésperas do aniversário de 250 anos

O governador Pedrossian em troca nomeou como secretário de fazenda Civis Müller da Silva Pereira, o sobrinho do senador. Civis Müller comandava o temível “Quadro Móvel” do chefe de polícia do Rio de Janeiro Filinto Müller nos anos 30/40. Outra providência de Pedrossian para agradar aos cuiabanos, além de ter como vice Lenine de Campos Póvoas, foi nomear como prefeito Frederico Campos.

O novo prefeito era filho de Manoel Campos, o dono da “Phamacea Central”, e apaixonado por futebol desde os vibrantes anos 30 em que os times de várzea tinham a mesma paixão que um time carioca. A paixão poderia ser grande, mas não havia muita organização e nem mesmo campo de futebol, e essa lacuna foi preenchida pelo pai de Frederico Campos. O primeiro estádio cuiabano foi construído por ele, e hoje está incorporado ao colégio Liceu Cuiabano.

O prestígio de Frederico Campos não vinha tanto da cuiabania, ou do seu cargo de superintendente de desenvolvimento da Amazônia (Sudam), ou outros predicados morais e profissionais como engenheiro civil ou administrador público e privado. A fonte do seu prestígio estava na influência que dois tios generais tinham junto ao Regime Militar.

O outro símbolo da aliança de Pedrossian com a elite cuiabana, o secretário Civis Müller, passou despercebido no cenário político regional. O secretário pouco aparecia em Cuiabá, e passava a maior parte do tempo no Rio de Janeiro. O cotidiano da secretaria de Fazenda era feito pelo fiscal Octávio de Oliveira.

O secretário Civis Muller acabaria sendo demitido pelo presidente da República devido a um antigo caso de corrupção em um órgão federal no Rio de Janeiro, do qual se encontrava licenciado para assumir a secretaria em Mato Grosso. O seu tio, o senador Filinto Müller não sabia da decisão presidencial. O secretário pediu exoneração da secretaria de Fazenda, e em alguns meses acabaria morrendo. A demissão e a morte do sobrinho em 1968 abalaria profundamente o senador Filinto Müller.

A essa altura o governador Pedrossian já andava com as próprias pernas, e regia os atores políticos mato-grossenses, e até mesmo conseguia acesso direto ao Palácio do Planalto. A independência em relação ao senador Filinto Müller, que estava muito próximo de Frederico Campos, e o desejo de formar o seu próprio grupo para sobrevivência política, o levaram a demitir o prefeito de Cuiabá as vésperas do aniversário de 250 anos.

O motivo foi um ofício de Frederico Campos encaminhado ao governador no dia 06 de janeiro. O prefeito dizia que haviam sido pagos 70 mil m² de calçamento, mas a empresa contratada para as obras havia entregado de fato apenas 15 mil m². O pior de tudo é que o custo inicial do projeto era do equivalente a R$40 milhões para o total de 200 mil m², porém a previsão final poderia chegar ao desembolso de R$160 milhões.

O prefeito estava sendo cobrado o tempo todo pelas obras, que estavam indo muito mal. A sua obrigação era entregar o serviço da medição das ruas e calçadas

O prefeito estava sendo cobrado o tempo todo pelas obras, que estavam indo muito mal. A sua obrigação era entregar o serviço da medição das ruas e calçadas, e quando houvesse a entrega da obra, a prefeitura também cobraria uma taxa de contribuição de melhoria. A parte da fiscalização cabia ao governo estadual, em especial ao secretário de Viação e Obras Sarkis Tcharghjian, que acabou pedindo exoneração no final de 1968.

O mesmo ofício adiantava que a prefeitura afastou a empresa contratada das obras na Rua Candido Mariano, e ela mesma estava fazendo o calçamento, e também já havia pedido autorização da Câmara Municipal para assumir a Rua 13 de Junho. O governador soube que o prefeito havia pedido o cálculo das obras para o departamento de Estradas e Rodagens (Dermat), subordinado a secretaria de Viação e Obras Públicas. O relatório do Dermat apontava que o m² do blokret deveria ser de R$100,00 ao invés dos R$200,00 pagos pelo governo.

O governador chamou então a empresa Via Pavimentações Construções, com sede em Bauru, escolhida a dedo após a dispensa de licitação aprovada pelos deputados estaduais em novembro de 1967 (lei 2.780/67), e deu o prazo até o dia 25 de janeiro de 1969 para concluir a Rua Barão de Melgaço. A empresa não fez nada disso e ignorou a ordem do governador.

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Parte 2

As coisas seriam deixadas para lá se o prefeito, ao ser pressionado pelo povo, não acabasse divulgando em fevereiro o oficio que fez ao governador em janeiro. O líder da oposição Augusto Mário Vieira (ARENA 1, ex-UDN) elevou a temperatura provocada pelo prefeito ao revelar um ofício do Tribunal de Contas (TCE) dando conta dos problemas enfrentados no calçamento das ruas de Cuiabá.

O TCE se negava a registrar a suplementação de mais R$12,6 milhões porque a etapa inicial do contrato era de R$8 milhões e depois ganhou aditivo de mais R$1,5 milhão. As obras não avançaram nem na metade do contrato e já havia problemas a serem resolvidos. As ruas com o novo calçamento gastaram mais R$5,5 milhões porque precisaram ser refeitas. O TCE reconhecia o gasto de R$15 milhões e não autorizava o governo seguir adiante com esse contrato. Em verdade, o governo já havia desembolsado R$30 milhões.

O governo se esforçou muito pelo novo sistema de blokret. A negociação com os deputados não foi fácil para permitir a dispensa de licitação, e depois disso saiu a campo para defender o novo calçamento das ruas. O povo aceitou o que o governo oferecia até que as obras começaram a causar incômodos como não poder transitar pelas ruas ou mesmo guardar o seu carro na garagem. Isso quando a empresa de pavimentação não rompia um cano, ou a enxurrada não saía arrancando os bloquetes das ruas.

O líder do governo Sebastião Nunes da Cunha culpava a oposição pelas críticas. Os críticos acabaram se calando porque a obra significa progresso, e um presente do governo à Cuiabá. O deputado Sebastião Nunes defendia que o blokret era o melhor sistema porque para fabricação dos bloquetes se usava a areia e o cascalho extraídos daqui mesmo e o cimento vinha da fábrica de Corumbá, distante a apenas 400 km.

Os críticos do governo que batiam na tecla de que o asfaltamento era melhor, não contavam ao povo que era necessário gastar muito mais porque se usava pedra britada, que não havia em Cuiabá

Por outro lado, segundo o deputado, os críticos do governo que batiam na tecla de que o asfaltamento era melhor, não contavam ao povo que era necessário gastar muito mais porque se usava pedra britada, que não havia em Cuiabá, e menos ainda a massa asfaltica, que era preciso trazer a mais de 2 mil quilômetros de distância, em Cubatão. “O asfalto dura apenas 5 anos enquanto o blokret tem uma vida útil que ultrapassa os 25 anos”, dizia o entusiasmado deputado.

O que o deputado não dizia é que o verdadeiro motivo era outro. O motivo para se calçar as ruas com cimento, mesmo que em formado sextavado (colméia) era para criar uma demanda por esse produto em Cuiabá. O secretário da indústria, comércio e mineração Aldo Romani estudava a viabilidade da instalação de uma fábrica de cimento próxima a Cuiabá. A fábrica estava orçada em R$25 milhões para começar a produzir e mais R$250 milhões quando estivesse em pleno funcionamento. O dinheiro para investir na fábrica sairia do governo, de investidores estrangeiros, e especialmente do bolso dos investidores cuiabanos.

O líder do governo Sebastião Nunes da Cunha culpava a oposição pelas críticas. Os críticos acabaram se calando porque a obra significa progresso, e um presente do governo à Cuiabá

O plano era bom, mas o governo acabou se atrapalhando com a incompetência técnica da empresa contratada. A sorte do projeto do “boom cimentício” foi a ajuda do bispo Dom Orlando Chaves quando mandou demolir a antiga Catedral Metropolitana. A construção da nova catedral consumiu todo o cimento de Cuiabá e manteve a fábrica em Corumbá ocupada em fornecer mais cimento. A demolição da velha igreja acabaria incentivando um surto de novas construções pela velha capital.

O embaraço com a empresa de pavimentação levou o deputado oposicionista Augusto Mário a ameaçar o governador com a criação de uma comissão parlamentar (CPI). O caso que saltava aos olhos, e indignava a população cuiabana era a situação da Rua Barão de Melgaço. O deputado Julio de Castro Pinto, do MDB de Três Lagoas, que deveria apoiar o governo concordou com a criação da CPI porque na sua base eleitoral o prefeito havia paralisado uma obra igual devido a incompetência técnica da mesma empresa. Os cinco vereadores do MDB concordaram com a criação da CPI na Assembleia.

A situação do governador estava crítica, e ele deveria agir rapidamente. E agiu durante o recesso parlamentar. O deputado Augusto Mário acabaria sendo cassado pelo Regime Militar no dia 14 de março de 1969. A acusação era que o deputado tinha a procuração de 600 professoras, e muitas seriam fantasmas, ou seja, o deputado poderia estar embolsando dinheiro público. O jornalista Eduardo Gomes, o Brigadeiro, vai mais longe à memória e relata que além dessa acusação o governador Pedrossian também deixou nas mãos da primeira dama do presidente Costa e Silva um anel feito com uma enorme pedra de diamante garimpada em Poxoréu.

Curioso que o prefeito de Poxoréu também adotaria o sistema de blokret, e também acabaria cassado no mesmo ano pelos vereadores. A cassação foi porque o prefeito contratou a si mesmo como fornecedor da prefeitura, e aditivou o próprio contrato sem que os vereadores autorizassem os pagamentos.

O asfalto dura apenas 5 anos enquanto o blokret tem uma vida útil que ultrapassa os 25 anos”, dizia o entusiasmado deputado

O deputado oposicionista foi removido do poder, mas o deputado situacionista Sebastião Nunes da Cunha, o líder do governador na Assembleia também foi cassado pelo Regime Militar (Conselho de Segurança Nacional). Os outros cassados no dia 14 de março foram João Chamma e o suplente Miguel Angelo Pereira.

Apesar do efeito colateral o governador Pedrossian afastou o risco na Assembleia Legislativa. O governador contava ainda que o Regime Militar dissolvesse a Assembleia logo após o retorno do recesso, mas isso não acabou não acontecendo. Enquanto resolvia o problema da Assembleia também se ocupou do problema na prefeitura municipal com Frederico Campos. A saída foi trocar Frederico Campos pelo secretário da Agricultura Bento Machado Lobo. O novo secretário seria Maçao Tadano.

O novo prefeito saiu do Palácio Alencastro e chegou as 16h00 no Palácio Marechal Rondon acompanhado do secretario de Justiça Leal de Queiroz e da agricultura Maçao Tadano. O ex-prefeito Frederico Campos saiu da prefeitura e foi direto para sua casa. Por outro lado, os vereadores contestaram a posse de Bento Lobo. O motivo era puramente formal porque a exoneração de Frederico Campos não havia sido publicada, e o mais grave, o nome do novo prefeito Bento Lobo não havia sido aprovado pela Assembleia Legislativa (referendado).

 

...Continua amanhã (segunda,13/Maio)

 

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COMENTÁRIOS

(9) COMENTÁRIOS

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Cleia - 13-05-2019 09:57:12

Por isso eu digo, ficamos nas mãos dos políticos e nada resolver, eles mandam e desmandam e a corrupção sempre existiu

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Daiane - 13-05-2019 09:55:45

.Asfalto é muito feio e o BLOKRET é bonito além de ecológico

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Tião - 13-05-2019 09:52:17

Cuiabá e suas polêmicas nas comemorações

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Luma - 13-05-2019 09:42:23

Não entendi a foto da criança no meio desses dois

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Bruno - 13-05-2019 09:41:48

A máfia só se perpetuou, 50 anos se passaram e filhos e netos dos que roubaram MT continuam no poder. Os clãs apenas se revezam

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Abimail Freitas - 13-05-2019 09:13:37

ESPERO EM DEUS QUE SIM.PELO PREÇO QUE JÁ CUSTOU ERA PRA ESTAR CHEGANDO EM ROO A LINHA!!

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Jorge Antônio - 13-05-2019 09:00:07

Kkkkkkkkkk corrupcao em obras de Cuiaba coisa das antigas tretas e mais tretas

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Bruno - 13-05-2019 08:59:25

Nada mudou, ooooo nada mudou.......

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José Antonio - 13-05-2019 06:53:04

Ainda esperamos pelo saneamento básico...O VLT e o "legado da Copa" são resquícios de uma máfia que ainda tem representação no Executivo municipal.

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9 comentários