Biografia NÃO autorizada - Emanuel Pinheiro: O assassinato que mudou a história política de MT | MUVUCA POPULAR

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Anais da história

Biografia NÃO autorizada - Emanuel Pinheiro: O assassinato que mudou a história política de MT

Cotado para ser governador, pai do prefeito de Cuiabá foi morto a tiros pelas costas

Três balas de calibre 38 colocaram fim a vida de Emanuel Pinheiro da Silva Primo na cidade de Chapada dos Guimarães as 13h00 do dia 26 de julho de 1974, uma sexta-feira, feriado municipal comemorativo a Nossa Senhora de Sant´Ana. O então deputado federal desenhava um futuro como Senador para o período 1975 até 1983, no pior dos cenários, e no melhor, o governo de Mato Grosso de 1979 até 1983.

O deputado Emanuel Pinheiro era da Aliança Renovadora Nacional (ARENA), o partido que sustentava o regime político da época e que estava acostumada a vencer os candidatos da oposição (na verdade, havia apenas o MDB). O deputado nasceu na Chapada dos Guimarães, ou assim falava, e naquele dia certamente homenagearia o dia de Sant´Ana, mesmo

A vitória era cantada para Emanuel Pinheiro. O ex-líder estudantil, e sempre torcedor “de carteirinha” do Flamengo, militou desde a defesa dos estudantes mato-grossenses no Rio de Janeiro, a então Capital Federal, até a promoção apaixonada da candidatura ao governo do deputado federal Ponce de Arruda, eleito para o mandato de 1956 até 1961

porque a cidade era “arenista” e ele o seu maior líder.

O cacife de liderança popular e articulada seria usado no dia seguinte em Campo Grande, onde acertaria sua candidatura ao Senado Federal. A vaga no partido seria aberta com o final do mandato de Fernando Corrêa da Costa em 15 de março de 1975. O senador Correa da Costa era tio da primeira-dama do governador Fragelli, e devido ao parentesco não poderia concorrer novamente. A reunião em Campo Grande seria para convencer Mendes Canale, Pedro Pedrossian, Gastão Muller e Vicente Vuolo a apoiarem o seu nome na convenção do partido no dia 15 de agosto de 1974.

A vitória era cantada para Emanuel Pinheiro. O ex-líder estudantil, e sempre torcedor “de carteirinha” do Flamengo, militou desde a defesa dos estudantes mato-grossenses no Rio de Janeiro, a então Capital Federal, até a promoção apaixonada da candidatura ao governo do deputado federal Ponce de Arruda, eleito para o mandato de 1956 até 1961.

Emanuel Pinheiro retornou do Rio de Janeiro formado em Direito em 1957, e exerceu prosperamente a advocacia, pelo menos em 1961 construiu um dos primeiros prédios da cidade com cinco pavimentos na Rua Joaquim Murtinho. O escritório era na Rua Campo Grande, tendo como sócio inicialmente Aníbal Pinheiro da Silva, depois Leão Neto do Carmo, e Wilton Caetano de Souza. Os sócios seguiram carreira no serviço público, e em 1963 Emanuel Pinheiro iniciou seu mandato de deputado estadual.

Acabou fundando o Jornal Liberal, veículo de apoio ao regime político da situação, que circulou entre 1964 até 1966. O ponto fora da curva do jornal, mas dentro do editorial, foram os ataques à enfermeira suíça Rachele Steingruber. A enfermeira denunciou mortes por desnutrição na região de Rosário Oeste aos grandes jornais cariocas e paulistas.

O que Steigruber revelou foi a miséria absoluta de Várzea Grande até Rondônia, região em que ela atuava com recursos não-governamentais. Os “arenistas” de Cuiabá divulgavam um Mato Grosso próspero e rico, sem os problemas sociais ou a pobreza das regiões nordestinas do Brasil. A política da oposição, Sarita Baracat, política expressiva de Várzea Grande, preferiu apoiar Steigruber.

A carreira política de Emanuel Pinheiro seguiu em escala ascendente, e em 1970 foi eleito deputado federal. A sua atuação na Câmara Federal é considerada robusta e em Brasília teceu uma rede de acordos e apoiadores que o permitiriam assumir o Palácio Paiaguás após o mandato de Garcia Neto. A história foi escrita de outra forma naquele dia de 26 de julho de 1974.

A mídia cuiabana registrou que Emanuel Pinheiro seguia com seu motorista até que na metade do caminho o pneu furou. O motorista pegou carona de volta para Cuiabá, e o deputado subiu a Chapada em carona de um caminhão tombeira (caçamba) do Departamento de Estradas e Rodagem (Dermat) que o deixou na porta da Câmara Municipal, onde o evento comemorativo da fundação da cidade já se realizava.

O que aconteceu depois foi detalhado pelos jornais cariocas e paulistas, e foi usado para tirar o foco de um possível crime político. A mídia cuiabana, de rádios e jornais apenas noticiou a morte. O deputado participava de um churrasco quando deixou a conversa com o prefeito Silvino Moreira da Silva para dar atenção ao comerciante João Lopes da Costa Filho (“Português”), ex-vereador e presidente local da ARENA. Os dois discutiram rapidamente naquele momento, sendo que horas antes foram vistos conversando amistosamente na Praça da Matriz.

O deputado virou as costas para encerrar a discussão, e então o ex-vereador sacou seu revólver e o descarregou nas costas do deputado. A morte foi instantânea. Três balas o acertaram, e outra atingiu levemente Márcio Cassiano da Silva. O ex-vereador, e candidato a deputado estadual, foi preso no mesmo momento pela polícia militar, e entregou a arma, confessando o crime.

O motivo do crime atendia pelo nome Thermozina Siqueira Lopes da Costa (“China”), ex-prefeita “arenista” do mandato anterior, tendo sido eleita com o apoio de Emanuel Pinheiro. A gestão do município de Chapada dos Guimarães, na época considerado o maior do mundo, continuou demandando o apoio de Emanuel Pinheiro. Ocorre que os dois se apaixonaram de forma muito profunda, e o término da relação seria emocionalmente impossível.

O deputado virou as costas para encerrar a discussão, e então o ex-vereador sacou seu revólver e o descarregou nas costas do deputado. A morte foi instantânea. Três balas o acertaram, e outra atingiu levemente Márcio Cassiano da Silva

Thermozina Siqueira era uma mulher elegante, e queria ser miss se o então noivo João Lopes deixasse. A elegância a acompanhou até a velhice, e morte em 2014. Queria ser professora, mas o marido João Lopes também não deixou. O que sobrou foi assumir a herança política do pai, Rafael Siqueira, e nunca mais deixou a política. A eleição ganha para prefeita não foi novidade, e seria a segunda mulher a assumir uma prefeitura (Sarita Baracat foi a primeira prefeita em Mato Grosso).

Além da costura política, Thermozina afastou desconfianças de que seria “pau-mandada” na prefeitura anunciando ainda durante a campanha o seu secretariado. O seu vice seria Ernani Calháo, Adalberto Sampaio Faria seria da Fazenda, o médico José Guilherme Esmela Curvo iria para a Saúde, o engenheiro Simondes Silveira Fraga ocuparia a pasta de Viação e Obras Públicas, o professor Laércio Chaves seria da Educação e o contador-geral seria Domingos Mattos. O eleitorado aprovou a equipe municipal.

O romance proibido teria começado em 1966, e segundo João Lopes, terminado por sua imposição em 1971. O marido traído teria mandado aviso de que o deputado, ex-amigo e correligionário nunca mais subisse a Chapada, ou seria morto. O que não é bem a versão contada a boca pequena em Cuiabá.

O romance entre Emanuel Pinheiro e Thermozina Siqueira era conhecido pelas famílias e amigos, e inimigos. E a relação era tolerada devido a discrição porque ela não abandonaria marido e os três filhos e ele também não deixaria a mulher e os cinco filhos.

Segundo os boatos não era apenas Emanuel Pinheiro quem subia a Chapada para se encontrar com a amada, seus adversários, da própria ARENA subiam a serra também, e conforme se aproximava a convenção do partido mais intensa eram as abordagens dos enviados dos adversários de Emanuel Pinheiro.

Esses enviados entregaram para João Lopes as fichas de entrada em hotéis de São Paulo e Brasília do casal de amantes. O trabalho psicológico desses agentes provocou uma explosão de ódio que levou ao assassinato naquele dia e ao rearranjo político em Mato Grosso na década de 70.

O assassino João Lopes ficou preso em Cuiabá por dois anos até o julgamento, e absolvição pelo Tribunal de Juri, em sessão de quase 13 horas de 19 de março de 1976, por 4 x 3. A tese do advogado Rêmolo Letteriello foi a de coação moral irresistível, ou seja, uma forte coação social provocada pelo caso amoroso público entre seu amigo e a sua esposa. O promotor Herman Dutra Pimenta sustentou a tese de homicídio por motivo fútil, e lesão corporal, devido ao tiro de raspão no transeunte.

Emanuel Pinheiro foi sepultado no dia 27 de julho de 1974, no Coxipó da Ponte, a região onde teria realmente nascido. A Câmara Federal convocou o advogado Edyl Pereira Ferraz para assumir sua vaga

O então homem livre João Lopes saiu escoltado pela Polícia Militar devido a comoção provocada entre parentes e amigos de Emanuel Pinheiro. A promotoria recorreu da decisão do Juri, e antes que houvesse outro pedido de prisão João Lopes se refugiou na Bolívia até o crime prescrever, e retornando para Chapada dos Guimarães no final dos anos 90.

Emanuel Pinheiro foi sepultado no dia 27 de julho de 1974, no Coxipó da Ponte, a região onde teria realmente nascido. A Câmara Federal convocou o advogado Edyl Pereira Ferraz para assumir sua vaga. O novo deputado, Edyl Ferraz, já tinha sido deputado por duas legislaturas estaduais, e era o segundo suplente. O primeiro suplente era Paulino Lopes da Costa, ex-senador, que assumiu mandato quando o deputado federal Totó Câmara se elegeu prefeito de Dourados.

A morte de Emanuel Pinheiro favoreceu os políticos da região sul de Mato Grosso. O deputado Paulino Lopes, apesar de cuiabano era ligado ao grupo político de Campo Grande, a cidade natal do Edyl Ferraz. O advogado de defesa Rêmolo Letteriello também fez carreira jurídica tendo por base a região de Campo Grande. E o candidato escolhido pela ARENA ao senado, e eleito, foi Antônio Mendes Canale, ex-chefe de gabinete do governador Pedro Pedrossian.

P.S. Esse suposto romance entre Emanuel Pinheiro e Thermozina foi a forma encontrada para tirar o foco político do crime, já que nunca foi realmente comprovado, mas os boatos e noticias não oficiais acobertaram os interesses envolvidos, e também foi usado na defesa do réu.

P.S.² Benedito Canelas foi o mais beneficiado com a morte de Emanuel Pinheiro. Ele saiu candidato a deputado federal com slogan "nasce um novo Pinheiro ". Foi o mais votado na eleição de 1974 e em 1978 virou senador.

PS.³ Na foto, o neto, Emanuel Pinheiro da Silva Primo (Emanuelzinho), que leva o mesmo nome do avô assassinado e hoje ocupa a vaga de deputado federal, que na época foi tirada pela tragédia, está ao lado do pai, Emanuel Pinheiro que é o atual prefeito da capital mato-grossense.
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COMENTÁRIOS

(11) COMENTÁRIOS

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jc - 28-01-2019 17:21:30

A primeira prefeita em uma cidade do Estado de Mato Grosso não foi a Senhora Sarita Baracat, mas sim a Sra. Ligia Borges de Figueiredo. D. Sarita governou Varzea Grande no periodo 67/70 enquanto D. Ligia governou Rosário Oeste no periodo de 46/50. Dizem que D, Ligia foi a primeira prefeita do Brasil. PS. Há outras incorreções históricas nessa reportagem.

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Marilyn Silva - 28-01-2019 15:07:30

Que história, em? Parabéns, Muvuca pelo resgate desses fatos que fazem parte da historia política de nosso Estado. Sugestão: conte a história de outro político, o sr Mário Quintela, (creio ser esse o nome) de Várzea Grande, que foi assassinado.

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Diego Souza - 28-01-2019 10:51:56

A história devolveu o mandato do avô para o neto, e fará do filho o futuro senador ou governador. Tudo foi desenhado pelo poder superior desde o assassinato covarde de um dos maiores líderes políticos de Mato Grosso. Está escrito!

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Culturalet - 28-01-2019 10:34:48

Belo resgate histórico, esses detalhes nenhum mato-grossense conhecia, pois a mídia local omitiu tudo na época, já que era comandada pela ditadura. Parabéns ao site pela capacidade extraordinária de ir fundo nos fatos!

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Santos - 28-01-2019 09:39:22

família que têm história no MT

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Thiago - 28-01-2019 09:38:45

Não tivemos o prazer de conhecer o pai, mas tivemos a felicidade de conhecer o filho e seus filhos na política

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Katiane - 28-01-2019 09:35:45

A nossa política nunca foi honesta sempre tem um lado negro que ninguém gosta de falar

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Camila - 28-01-2019 09:34:19

Traição desde os tempos antigos assombrando as famílias

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Arlindo - 28-01-2019 09:27:49

Nossa que história triste

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jose antonio silva - 28-01-2019 08:04:00

POR AÍ SE VÊ DE ONDE VEM A TENDÊNCIA DE TRAIR O POVO E COLOCAR DINHEIRO NO PALETÓ! SERÁ QUE O DEPUTADO FEDERAL SEGUIRÁ O MESMO CAMINHO DO PAI E DO AVÔ? OXALÁ NÃO! PARA O BEM DO POVO!

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Anselmo - 27-01-2019 17:40:39

Eu acho interessante que os filhos e netos nunca usaram a morte do pai para se promover politicamente, como o finado político Valtenir Pereira e outros mais

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11 comentários