Caso Padre Tannhuber: 44 a Lei de Mato Grosso (Final) | MUVUCA POPULAR

Domingo, 18 de Agosto de 2019

ESPECIAL Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2019, 05h:42 | - A | + A




Fonte de sangue

Caso Padre Tannhuber: 44 a Lei de Mato Grosso (Final)

Local que originou apelido do estado virou hotel de águas quentes explorado ilegalmente

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Um bando de homens armados cercou o Padre Tannhuber na frente da igreja e seu líder o assassinou com uma winchester calibre 44. Após o episódio, Cândido Rondón faria uma inspeção e acabou descobrindo um lado sujo da religiosidade local, o particionamento de terras e exploração dos indígenas na colônia Palmeiras.
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Leia também:

- Parte 1: A morte do padre Tannhuber e a luta dos povos indígenas em MT
- Parte 2: 1920, Marechal Rondon descobre a corrupção em Mato Grosso

As terra do local eram boas e tinha recursos abundantes, um deles era o que se chama hoje de águas termais. O trabalho técnico dos professores Orobimbo Corrêa Netto e Guilherme Milward, do departamento de Química da Faculdade de Medicina de São Paulo acabou  confirmando o que sempre se suspeitou, as águas termais de Palmeiras conhecidas como “termas do paulista”, a seis quilômetros dos padres, e que brotavam a 400 metros acima do nível do mar, a 41º, eram excepcionais.

O laudo foi apresentado publicamente para o governador Dom Aquino Correa. A elite cuiabana, conhecedora da capacidade das águas quentes, e radioativas, em outras estâncias

O que havia no lugar era uma pequena barragem feita de pedras e barro para formar uma piscina onde vez ou outra alguém aparecia para se banhar

hidrominerais, do exterior inclusive, agitou-se. Os planos foram feitos e eram necessários volumosos recursos para explorar o lugar, especialmente uma estrada.

Os “paulistas” que ocupavam a área não sabiam do interesse em Cuiabá pelas águas quentes. O que havia no lugar era uma pequena barragem feita de pedras e barro para formar uma piscina onde vez ou outra alguém aparecia para se banhar. O lugar era de difícil acesso. Mas a equipe do professor Orozimbo apareceu por lá, e eles ficaram inquietos. O negro Tobias (seu sobrenome se perdeu no tempo) estava de orelha em pé porque soube que os padres iriam ampliar a propriedade das Palmeiras com terras devolutas da vizinhança, como era o seu caso.

Os boatos diziam que o governador venderia cada hectare de terra devoluta pelo equivalente a R$100,00 aos padres. O boato era forte porque o governador era salesiano (Dom Aquino Correa) e seu secretário responsável pelo assunto Padre Manoel Gomes de Oliveira, também era salesiano, e o diretor das missões também era (Dom Malan).

O “paulista” Tobias freqüentava as missas da escola dos padres, e era conhecido de todos. O que ele não conseguia era conversar francamente com o Padre Tannhuber. O início do trabalho de medição do agrimensor Arlindo Sampaio Jorge pela colônia de Palmares assustou os posseiros. O pânico invadiu Tobias quando viu que suas terras, ao redor das águas quentes, seriam engolidas pelos marcos dos salesianos. Procurar o Padre Tennhuber também não ajudou porque foi expulso da escola aos berros de que as terras tinham dono.

Tobias então reuniu seus vizinhos posseiros, em número estimado de quarenta, e no dia 29 de outubro de 1920, esperaram o padre terminar a missa de domingo. Depois disso os moradores foram para suas casas e o padre e seus convidados esperaram embaixo de algumas mangueiras. O líder dos posseiros não queria mais falar com o Padre Tannhuber, e foi para o agrimensor Arlindo que se queixou. Tobias estava magoado com o padre que o mandou se queixar com o bispo quando foi falar da medição, e menosprezado todas as vezes em que chegava na escola.

O “paulista” Tobias freqüentava as missas da escola dos padres, e era conhecido de todos. O que ele não conseguia era conversar francamente com o Padre Tannhuber e acabou liderando um bando para assassiná-lo

O agrimensor jurou que não iria medir terras ocupadas por ninguém e que seguiria apenas os marcos da colônia de Palmares, e disse mais, que iria interceder por ele para que o incidente daquele domingo não virasse caso de polícia. Tobias disse que já tinha esgotado o tempo de todos e os mandou seguirem para Cuiabá. O grupo seguiu caminhando e dois quilômetros depois Tobias mandou que um homem chamado Germano “fizesse o serviço”. Germano se recusou a matar o padre, e foi golpeado com um facão que abriu um corte da mão direita até o cotovelo e enquanto Germano corria para não ser morto Tobias preparou a carabina Winchester, conhecida como “44 a Lei de Mato Grosso”.

A arma era a preferida para quem morava no sertão, como seringueiros ou garimpeiros, e era facilmente encontrada em Cuiabá. Uma Winchester 12 tiros era comprada pelo equivalente a R$4,5 mil, e cada munição a R$10,00, ou poderia ser adquirida por R$1,5 mil no mercado negro (desviadas das forças oficiais ou paramilitares agrupadas nas usinas de açúcar). A arma era “A Lei do 44” porque na época advogados eram caros e a justiça lenta, sem contar que também era tendenciosa, e por esse motivo o 44 costumava ser usado para resolver disputas.

Tobias estava a uma distância de dez metros e começou a atirar. O Padre Tannhumber corria de um lado para outro, e nenhum dos sete tiros disparados o acertou. O padre então parou subitamente e apenas esperou Tobias se aproximar por cinco metros, depois três metros, e então o tiro fatal foi disparado no peito. O Padre Tannhuber morreu com cinco tiros.

A comoção foi imediata e quase todos os quarenta homens que acompanhavam Tobias correram. A ordem então foi repetida para todos voltarem para Cuiabá e não voltarem para trás. O agrimensor Arlindo nunca mais deveria voltar para Palmeiras e os padres nunca mais deveriam tomar terras de ninguém. O recado tinha sido claro. O agrimensor então liderou o Padre Pedro Viecelli, os leigos Ludovico Bruss e Humberto Zanoni e mais quatro irmãs, mata adentro por três dias sem comer até chegar à Cuiabá.

Arlindo Jorge deixou Cuiabá após depoimento à polícia, e foi para Campo Grande, até se mudar para Três Lagoas, onde se casou com uma das filhas do prefeito Sebastião Fenelon da Costa, em 1921. O sogro tinha orgulho dos seus genros e era bem relacionado na região de Três Lagoas, onde foi um dos fundadores. O poder político de Fenelon Costa acabou sendo abalado em 1926 por Fenelon Muller, que fraudou uma ata e acabou nomeado o novo prefeito.

A ousadia de fraudar o documento, e espalhar aos quatro ventos que era o vencedor das eleições (na verdade, o governador era quem aprovava os nomes a partir das atas) quase custa sua vida em um atentado à bala. A suspeita é que o mandante tenha sido o coronel político Alfredo Justino de Souza, aliado de primeira hora de Fenelon Costa. A eleição para prefeito levava a chapa inteira ao poder, com dois vices prefeitos, cinco vereadores, cinco suplentes, e mais três juízes e seus suplentes. Os tiros contra Fenelon tiraram Filinto Muller (a quem tinha devoção) do seu refúgio na Argentina e o levou até Três Lagoas.

O que Arlindo Jorge sempre repetiu é que tinha deixado bem claro para Tobias das Palmeiras, desde o momento das medições na mata ao redor da “fonte do paulista”, é que Dom Malan não sabia onde começava e terminava as terras. É claro que Tobias não acreditou porque as medições também serviriam para requerer as outras terras vizinhas, ou seja, os padres não poderiam requerer no governo o que não tinham conhecimento.

Desfecho

A notícia da morte do Padre Tannhuber chegou a Cuiabá e o governador Dom Aquino mandou uma equipe de policiais para manter a ordem em Palmeiras. O próprio Tobias dizia que ele era apenas a ponta de lança de um movimento revolucionário, e estaria agindo a mando de forças políticas da oposição

A notícia da morte do Padre Tannhuber chegou a Cuiabá e o governador Dom Aquino mandou uma equipe de policiais para manter a ordem em Palmeiras. O próprio Tobias dizia que ele era apenas a ponta de lança de um movimento revolucionário, e estaria agindo a mando de forças políticas da oposição. O agrimensor Arlindo não acreditou, mas se o governo tomasse o crime como político e não devido a luta pela terra, o assassinato seria deixado de lado. Portanto foram despachadas duas foças da polícia militar.

O tenente Daniel de Queiroz comandou a tropa que partiu direto para Palmeiras, acompanhado de um escrivão de polícia, e do médico legista Alberto Novis (herdeiro da Usina do Itaicy, e avô do doutor Gabriel Novis Neves), e outra tropa comandada pelo coronel político Manoel Joaquim Correa da Costa, que era delegado de Palmeiras e estava em Santo Antônio do Leverger.

O coronel Manoel Joaquim reuniu uma força de civis e ocupou a colônia agrícola até a chegada do tenente Daniel, para logo depois se juntar com o coronel político Palmiro Paes de Barros (Usina da Conceição) e seguiram para o Distrito de Mimoso onde os boatos diziam que o bando de Tobias estaria se reunindo com outro grupo para depor o governador Dom Aquino.

O assassinato do Padre Tannhuber levou a discussão em Cuiabá de que tudo teria sido obra de dois líderes do partido da oposição para desestabilizar o governador. Os ânimos ficaram acirrados. O Padre João Batista Conturon, diretor do Liceu Salesiano recebeu um telegrama de pêsames do deputado Annibal de Toledo, e ao final, o deputado culpava D. Aquino “pela impunidade em que tem deixado os crimes ocorrem no Estado”. O Padre Conturon despachou outro telegrama acusando os correligionários do deputado de serem os responsáveis pela morte do Padre Tennhuber.

O governador era muito cobrado, especialmente porque seu secretário de segurança pública Deocleciano Menezes não resolvia nenhum dos crimes que ocorriam em Mato Grosso. O Distrito de Mimoso era um dos focos de banditismo, especialmente de roubo de gado.

O usineiro (sinônimo de coronel) Palmiro Paes de Barros era apontado como mandante de várias mortes em Mimoso, e até da tentativa de morte contra o adversário o coronel Virgínio Nunes Ferraz (Usina Aricá). O plano para assassinar o coronel Virgínio, conhecido como “Vivi” pelos amigos, teria sido revelado na casa do delegado da Bocaína, porém ao serem chamadas as testemunhas para depor todas acabaram negando.

A rebelião contra o governador afinal não ocorreu. Mas a demora na captura do assassino Tobias também não ajudou a acalmar os ânimos em Cuiabá. As forças de segurança passaram várias vezes na região para localizar Tobias, e não encontraram nenhum rastro seu nos seis meses seguintes.

O delegado de polícia de Santo Antônio do Leverger Hygino Guedes se impôs a meta de capturar o foragido em um mês. O delegado levou na campana o sargento Barbosa, três policias militares, e dois paisanos. O levantamento dos investigadores chegou até a esposa de Tobias como a chave do problema.

A mulher foi seguida, e toda a semana ela levava comida para o marido. O assassino então foi localizado as 14h00 do dia 03 de abril de 1921 no trecho de mata chamada Morrinho dentro da propriedade do coronel Virgínio Nunes Ferraz. Curioso que o 'coronel Vivi' acabaria perdendo um genro, ex-escrivão de polícia, morto a tiros em 1924 na região das Palmeiras quando tentava obrigar um trabalhador foragido a voltar para a Usina do Aricá.

Tobias acabou ferido sem gravidade por três balas nos braços e pernas. O delegado deixou que o ferido tentasse uma fuga e apenas o acompanhou até que perdesse as forças horas depois. Depois disso o colocou em um barco e o entregou para o chefe de polícia (secretário de segurança pública). O depoimento de Tobias não foi divulgado, e pouco se sabe sobre seus contatos políticos que teriam insuflado em seu ânimo o ódio contra o governador, e que levou a morte do Padre Tannhuber.

O preso Tobias foi condenado pelo Tribunal do Juri e nunca teve oportunidade para reduzir sua pena. Apesar dos espancamentos ainda resistiu por quatro anos quando morreu por “pneumonia”, o que significa dizer, que como se demorasse a morrer, acabou tendo suas costelas fraturadas, e jogado para dormir em chão úmido e sem proteção, como roupas ou cobertor. Os anos se passaram e a elite cuiabana sempre jogou a morte do Padre Tannhuber na conta exclusiva do negro Tobias, que foi quem puxou o gatilho.

A escola agrícola “Gratidão Nacional” acabou sendo desativada nos anos 30, e a área de 2.268 registrada em nome de Antônio Maria Malan, permaneceu a mesma, sem nenhuma

O local onde ocorreram os episódios que mancharam a história de MT é explorado comercialmente por família tradicional cuiabana através de concessão do governo

incorporação posterior. Os equipamentos originais da usina, e até outros doados pelo governo, como as máquinas da fábrica de pólvora do Coxipó onde foi morto Totó Paes em 1908, também foram vendidos para uma empresa de Cuiabá. Segundo o deputado estadual Agrícola Paes de Barros, médico, jornalista, e socialista, o patrimônio da escola não poderia ser vendido para a Gaudie Ley & Almeida porque tudo foi doação do governo federal. O deputado criticava ainda a posse de 75 mil hectares doados pelo governo estadual em nome dos índios.

A “fonte do paulista” ou de Tobias das Palmeiras acabou sendo incorporada como patrimônio do Estado, e segundo uma lei estadual de 1938 tudo ao redor da fonte em um raio de 3 mil metros estava reservado, e não pode ser vendido ou desfrutado por particulares sendo o seu uso para o público.

P.S. Hoje a fonte de águas termais, no sítio paulista, a 85 km de Cuiabá, é explorada comercialmente pela família Nigro (Hotel Mato Grosso águas quentes), com concessão de 30 anos já vencida, sem que governo algum se incomode em rever sua exploração.

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COMENTÁRIOS

(1) COMENTÁRIOS

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Liberto - 22-02-2019 10:28:18

Ilegalmente é o que mais tem, mas quando é um pobre vão lá e tiram e quando é rico não fazem nada

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