Feminicídio em MT (Final): A mulher que ousou lutar contra os agressores | MUVUCA POPULAR

Quarta-feira, 17 de Julho de 2019

ESPECIAL Domingo, 17 de Março de 2019, 18h:10 | - A | + A




Resgate histórico

Feminicídio em MT (Final): A mulher que ousou lutar contra os agressores

Delegada Miedir Sant"ana foi a primeira mulher a combater a violência doméstica

A delegada Miedir Sant´Ana da Silva era considerada 'linha dura', e foi promovida ao comando da primeira delegacia especializada de crimes contra a mulher, criada na década de 80, no governo Júlio Campos.
ee

___________
Leia também: 

- Feminicídio em MT (Parte 1): Como começou o enfrentamento
- Feminicídio em MT (Parte 2): Anos 80 - violência, álcool e drogas

A mídia cuiabana acompanhou com interesse o trabalho na nova delegacia. O primeiro caso parecia ser promissor, mas era apenas mais do mesmo. A dona-de-casa Conceição convivia há dez anos com Gervásio e não aguentava mais as surras e por esse motivo prestou queixa na delegacia, e quando os policiais foram entregar a intimação o prenderam no momento em que ele estava quebrando a casa. O homem ficaria preso se a mulher não tivesse chorado pelo agressor. A prisão iria prejudicá-lo e ele só era violento quando bebia, nos finais de semana.

O segundo caso parecia mais interessante. Ainda no primeiro dia de funcionamento da delegacia apareceu o caso da Srª. Déa, que morava havia cinco anos com um homem chamado Altamiro. Ele não apenas a expulsou de casa aos socos como quebrou tudo. A mulher fugiu para casa da mãe no sábado, e no domingo, ao voltar para pegar suas coisas, encontrou tudo destruído, e ainda uma faca do tipo peixeira e um pedado de pau em cima da mesa. O que foi entendido como um recado do marido de que a mataria.

. Os maridos as agrediam com murros e chutes, sendo comum o uso de cintos, e quase sempre as ameaçavam com armas de fogo, facas ou porretes

O suposto valentão desabou aos prantos quando sentou em frente à delegada. O choro foi acompanhado pela mídia do lado de fora porque na sala ficavam apenas a delegada e a escrivã. Segundo ele Déa o ignorava, e ele não podia fazer nem um carinho nela, e a tudo ela respondia com grosserias. O pior é que nunca sabia de nada. A luz era cortada, o gás acabava, e ele só sabia dessas coisas depois. O pior e que a mulher recebeu aviso para desocupar a casa alugada e ele não sabia, e soube quando chegou do trabalho, e a sua profissão era jogador profissional de futebol. Defendia um time de Poconé.

A companheira Deia não ficou comovida com o choro. O homem teria espancado o bebê com três meses de idade, e era comum sumir de casa por vários dias sem dar satisfações. O que ela fazia era manter a casa como podia, porém a casa era alugada e após três meses de aluguel atrasado a dona a pediu de volta. Por conta disso, quando o marido chegou em casa estava tudo embalado. Segundo ela, o marido a acusou de ter outro homem e de querer fugir com o amante.

O ciclo de violência familiar acabou com a separação do casal. Mas “Jôse”, um dos filhos, seria assassinado em 2016 devido a um longo histórico de crimes e dependência química. O bebê do casal quando adulto estaria envolvido em um latrocínio contra uma médica neuropediatra em 2001. Acabou morto por um rival no tráfico de drogas.

A Delegacia da Mulher atendeu 8 casos no primeiro dia, 12 casos no segundo, e 25 casos no terceiro dia. E um desses casos foi trazido por Terezinha que estava sendo espancada pelo companheiro Valdomiro, e ele quase agrediu a delegada se não fosse contido por ela na mira do revólver. A mesma agressividade foi apresentada por um dos filhos do casal, “Piu”, que acabou preso em 2003 por extorquir fazendeiros na região de Lucas do Rio Verde, usando arma de fogo para roubar defensivos e equipamentos agrícolas.

A Delegacia da Mulher atendeu 8 casos no primeiro dia, 12 casos no segundo, e 25 casos no terceiro dia

O trabalho da Delegacia da Mulher chegou até as feministas do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher ainda no final de 1986 onde ela expôs o que havia perfilado em seis meses de atuação. O perfil das vítimas era de 60% de mulheres conviventes, e com homens mais jovens. As mulheres casadas oficialmente demoravam a procurar a delegacia porque queriam manter a aparência de uma família feliz.

A maioria das mulheres tinham renda até 3 salários mínimos. Os maridos as agrediam com murros e chutes, sendo comum o uso de cintos, e quase sempre as ameaçavam com armas de fogo, facas ou porretes. Além disso, o início das brigas começava com os homens bêbados insistindo em sexo que suas mulheres aceitassem relações extraconjugais. O sexo nessas condições sempre era forçado, mas na época não havia o conceito de estupro marital.

Outros conceitos também não existiam. Feminicídio ou “Lei Maria da Penha” surgiram muitos anos depois. Ou temas como pedofilia também não eram discutidos porque assustava que se fosse uma verdadeira epidemia nos lares cuiabanos, ou mesmo exploração infantil. A delegada Miedir enquanto atuava na Delegacia do Menor resgatou muitas meninas nessas condições. Mas naquela época não havia instrumento e legislação, ou ainda interesse político em tratar desses temas.

A média anual das ocorrências na Delegacia da Mulher era de 2,4 mil casos (atualmente a média se mantém, e com o dobro da população). As centenas de queixas de tentativa de assassinato resultaram em apenas 10 prisões preventivas, mas isso foi o suficiente para correr a fama de que “por qualquer coisa” as mulheres colocavam os maridos na prisão.

De cada mil mulheres em Mato Grosso, 27,2 são vítimas de violência doméstica. Somente no ano passado 38 mulheres foram mortas em casos de feminicídio.

Um dos casos foi o do marido passar o dia espancando a mulher até que ela fugiu e pediu ajuda na delegacia. A delegada mandou uma intimação para o agressor, e ele rasgou, alegando intromissão estatal em assuntos privados. Acabou preso por desacato (o crime de desacato está fora de uso atualmente). Outro caso resultou no marido recebendo a intimação e fugindo de Cuiabá para não ser preso pela Delegacia da Mulher.

A fama da delegada era usada para assustar os companheiros, porém elas não queriam suas prisões. O que as mulheres agredidas queriam era apenas a separação de corpos, e que eles saíssem da casa as deixando com os filhos. A questão da pensão alimentícia era um assunto delicado, e também não havia instrumento para pressionar o seu pagamento, sem contar que o entendimento da sociedade também era outro (a pensão era vista como benefício para a mulher e não os filhos).

O que a delegada sempre fazia nesses casos era pedir a separação e assegurar os direitos da mulher, incluído a não ser importunada, através de defensores públicos (A instituição Defensoria Pública seria instalada no governo Dante de Oliveira).

P.S. O calcinha trouxe este histórico para resgatar o surgimento do amparo à mulher vítima de violência doméstica, que acaba gerando o que se chama hoje de feminicídio, um crime de gênero cometido contra mulheres, quando há violência doméstica e familiar, e menosprezo ou discriminação à condição da mulher. A lei foi incluída no Código Penal como uma modalidade de homicídio qualificado e entrou em vigor no dia 9 de março de 2015.

P.S.² Mato Grosso hoje tem uma das taxas mais elevadas de violência contra a mulher resgistrada no país. Segundo o TJ, foram 4 mil medidas protetivas pedidas de janeiro e junho de 2018, sendo 18 mil medidas protetivas em vigor. 255 casos de assassinato de mulheres aguardam julgamento. 36,6 mil processos de violência contra mulher estão em tramitação no estado. De cada mil mulheres em Mato Grosso, 27,2 são vítimas de violência doméstica. Somente no ano passado 38 mulheres foram mortas em casos de feminicídio.

VOLTAR IMPRIMIR

COMENTÁRIOS

(10) COMENTÁRIOS

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do MPopular. Clique aqui para denunciar um comentário.

Jurema - 18-03-2019 10:12:16

Eu mesma seria mais uma na estatística se não tivesse tomado as precauções, graça a Deus tive sorte

Responder

2
0


Simara - 18-03-2019 10:10:31

Corajosa essa delegada

Responder

2
0


Vilma - 18-03-2019 10:09:01

Perdi uma amiga assim. Eu avisei tanto...Mas ela se "sentia" amada

Responder

2
0


Nelson - 18-03-2019 10:08:08

Na minha opinião Infelizmente as leis deste país como muitas outras não funciona e só funciona quando lhes convém

Responder

2
0


Lorena - 18-03-2019 09:59:47

Tb estou fora de homens assim vivo uma vida triste. Até que um dia tomei coragem e deu um basta

Responder

1
0


Rubens - 18-03-2019 09:58:33

Antigamente acredito que sofriam muito mais que hoje mulher não tinha vez era como um objeto graças a Deus que tudo mudou, eu como homem não aceito saber que existe pessoas do sexo masculino tão covarde assim.

Responder

1
0


Felizarda - 18-03-2019 09:56:03

E infelizmente eu sei o que é isso. Eu já passei por essa situação por vários anos. Mais agora graça a Deus. Estou livre de tudo isso.

Responder

1
0


Pamela - 18-03-2019 09:55:22

deve ser muito triste a realidade de quem passa por esse tipo de situação

Responder

1
0


Pamela - 18-03-2019 09:53:57

deve ser muito triste a realidade de quem passa por esse tipo de situação

Responder

0
0


oscar - 18-03-2019 09:02:28

Também havia .uitos homicídios na época

Responder

0
0


10 comentários