Feminicídio em MT (Parte 2): Anos 80 - violência, álcool e drogas | MUVUCA POPULAR

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Resgate histórico

Feminicídio em MT (Parte 2): Anos 80 - violência, álcool e drogas

A perda da virgindade era motivo para abuso físico e moral dos pais, e levava meninas a se prostituir

A Cuiabá dos anos 80 passava por uma onda de violência nunca vista antes, e o poder público não tinha condições de resolver o problema. A delegada Miedir relata que quando estagiava no Dops participou de uma operação (arrastão) em todas as casas de prostituição da Capital. O arrastão era inspirado no que o Dops havia feito em Campo Grande, em que foram fichados todos os estabelecimentos e as profissionais do sexo, e então se acompanhava a saúde delas para evitar a disseminação de doenças sexuais.
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O Dops de Cuiabá apreendeu 160 prostitutas menores de idade, de 11 até os 17 anos, e não havia como atendê-las porque a assistência social não estava preparada. As meninas eram filhas de pais desempregados ou alcoólatras, e muitas eram simplesmente abandonadas. Outro motivo da prostituição é porque foram expulsas de casa ao perderem a virgindade. O defloramento sexual era motivo para abuso físico e moral dos pais, e então essas meninas se uniam a outras na mesma condição, e todas passavam a se prostituir.

O poder público na época não tinha recursos para abrigos públicos, e acompanhamento psicológico. O que chocava também é que não se sabia como lidar nos casos de pedofilia. A legislação na época era vaga nesse sentido, e o governo não queria saber de tratar desse tema. A pedofilia e a exploração sexual de menores aparentemente não existia porque o governo não a abordava. Aliás, o Dops de Cuiabá não fez mais arrastões para apreender menores nas casas de prostituição.

A perda da virgindade era motivo para abuso físico e moral dos pais, e então essas meninas se uniam a outras na mesma condição, e todas passavam a se prostituir

A delegada Miedir assumiu a especializada do Menor desde a sua nomeação em julho de 1977 (e a deixou em julho de 1986), e durante todo esse período passavam pela delegacia de 10 a 15 casos diariamente, ou seja, quase 3,5 mil boletins de ocorrência ao ano, e por trás desses registros apenas 800 indivíduos que perambulavam pelas ruas de Cuiabá, que na época tinha uma população de 200 mil habitantes. As celas da delegacia comportavam 20 menores, mas sempre haviam 60 encarcerados.

O que havia de comum entre esses menores infratores era o violento ambiente familiar. Os pais eram muito pobres, quase sempre dependentes (álcool e drogas) e os espancamentos sempre recorrentes dentro de casa. As ocorrências envolvendo os menores eram de 50% devido a furtos em residências, 30% com envolvimento em drogas, e os demais por envolvimento em gangues. A motivação de todos eram as armas, porque a posse de um revolver já resolveria todos os seus problemas.

Segundo Lauri San Martin da Paixão (“Peninha”), ex-policial civil, guarda-costas do governador Júlio Campos, e do departamento de inteligência do secretário Travassos foi montado um esquadrão da morte para execução dos marginais considerados irrecuperáveis. O esquadrão não agia sobre menores infratores, mas houve uma exceção quando a casa de um coronel aposentado da PM foi invadida, e a sua nora sofreu agressão sexual.

A quadrilha composta por cinco menores queria as armas, e o assunto sumiria nos boletins de ocorrência se não fosse o estupro. A mulher foi internada porque estava seriamente machucada, e o médico disse aos policiais da inteligência que o estuprador teria o membro fálico descomunal. A informação levou a captura da quadrilha. O secretário teria até ficado curioso para saber quem era o tarado, e foi até o Comando da PM onde todos estavam sendo espancados. Os menores depois disso sumiram.

O esquadrão da morte caiu em desgraça no “Caso da toalha azul”. O caso foi a chacina de sete pessoas por membros do esquadrão da morte ocorrida na noite de 29 de outubro de 1984. A motivação teria sido US$2,5 mil de um homem que eles suspeitavam ser ladrão de carros. Os policiais da elite mato-grossense acabaram se tornando matadores de aluguel e latrocidas.

A delegada Miedir foi muito pressionada para controlar a violência envolvendo os menores, e ela agiu da pior forma possível

Os anos 80 foram muito violentos. O dinheiro do povo era corroído pela inflação e havia muito desemprego. A corrupção também era uma constante na midia. A situação dos menores abandonados que nunca foi boa acabou se complicando com o tráfico de drogas em Cuiabá. O centro da cidade não vivia em paz devido aos menores que cometiam furto a luz do dia, e na periferia ocorriam mortes e vandalismo nas escolas. A delegada Miedir foi muito pressionada para controlar a violência envolvendo os menores, e ela agiu da pior forma possível.

A escola municipal Guilhermina de Figueiredo (Carumbé) era um exemplo do vandalismo insustentável. A merenda da escola sempre foi furtada, mas em uma dessas ações os vidros e as portas foram quebradas, e para piorar os vândalos espalharam fezes pela escola. A delegada chegou até os nomes dos ladrões após apreender cinco deles por uso de maconha. O grupo de ladrões e vândalos era composto por 20 menores entre 12 e 15 anos de idade de alunos, e ex-alunos da própria escola.

A delegada foi atrás dos outros menores, mas os pais esconderam seus filhos. O medo deles era responder a processos, ou terem seus filhos presos, ou mortos. A cidade convivia com boatos de que a delegada Miedir espancava os menores com palmatória, e todos os que eram fichados acabavam nas mãos do esquadrão da morte e nunca mais eram vistos. A delegada sempre negou os espancamentos, ou que ameaçasse alguém com uma arma.

A escola Fenelon Muller (CPA III) foi invadida pela polícia no mesmo mês de maio de 1984. A delegada entrou com três equipes de policiais militares armados com escopeta e retirou cinco alunos das salas de aula. Os seus nomes estavam em uma lista de vândalos. A polícia não poderia entrar na escola, e ao lembrar a delegada dessa orientação, a assistente social recebeu voz de prisão (depois revogou a ordem). Da escola a delegada, acompanhada dos comissários de menores do juiz Antônio Humberto César foi até a casa de um aluno, e o prendeu.

O aluno era filho de Geraldo Henrique Costa, o coordenador do movimento da consciência negra e do Centro dos Direitos Humanos Henrique Trindade. A ONG foi criada devido ao assassinato do líder rural Henrique Trindade na noite de 04 de setembro de 1982 por um grupo de pistoleiros comandados pelo delegado de Alto Paraguai Nelson Tokashike. A tensão no campo devido aos grileiros elevou dramaticamente violações dos direitos humanos na cidade.

O filho do líder social foi solto dois dias depois (seu nome apareceu na lista dos vândalos da Fenelon Muller) graças a interferência da secretária da Educação Juracy de Campos Braga. A secretária era outra que sofria pressões, especialmente por ser irmã do governador. O militante Geraldo Costa acusou a polícia de ser racista e fábrica de marginais. É claro que a delegada Miedir se autodeclarar negra não ajudou pelo fato dela estar no cargo por apadrinhamento político.

A mesma crítica foi feita da tribuna da Assembleia Legislativa no mês seguinte após a invasão da escola Belmira Monteiro de Figueiredo (Jardim Leblon) com policiais armados com fuzis e escopetas para retirar três alunos da sala de aula devido a uma investigação de tráfico de drogas. Os alunos foram espancados por policiais ainda na escola. Segundo o deputado Francisco Monteiro (PDS), não era porque a delegada e a secretária da Educação eram do mesmo partido que ele fecharia os olhos de que a Delegacia de Menores estava agindo com dois pesos e duas medidas. O tráfico de drogas ocorria também nas escolas do centro, onde circulava o dinheiro.

Na escola Belmira Monteiro de Figueiredo (Jardim Leblon) policiais armados com fuzis e escopetas entraram para retirar três alunos da sala de aula devido a uma investigação de tráfico de drogas

A cela da Delegacia do Menor estava lotada e a delegada sofria pressão para soltá-los. A autoridade que mais pressionava era a delegada de ensino Marilda Reis, e ela era pressionada pelos professores para fazer valer a lei de não permitir operações policiais dentro das escolas. A delegada Miedir acusou o professorado cuiabano de conivência com a marginalidade. O estresse com os pais de alunos e professores a fizeram pedir exoneração.

O secretário Travassos negou, e prometeu melhores condições de trabalho. O prédio da delegacia saiu da Avenida Brasil (Verdão) e foi para a Avenida do CPA (próximo a Brigada do Exército). A nova delegacia foi construída em poucos meses, pelo equivalente a R$4,5 milhões, e teria dez celas, sendo 5 para meninos e 5 para meninas (ao final foram todas ocupadas por meninos), além disso foi aumentada a equipe de policias e a delegacia começou a contar com três viaturas.

Meses depois da inauguração da nova Delegacia da Mulher a delegada Miedir assumiria a Delegacia da Mulher, onde ficaria até a aposentadoria em 1995.

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COMENTÁRIOS

(3) COMENTÁRIOS

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Marcia - 17-03-2019 12:12:09

Os anos 80 foram marcados por todos os tipos de repressão por todo o país. E as maiores vítimas sempre serão os pobres, sem estrutura familiar e desvalidos. Parabéns pela matéria!

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Jaiminho - 17-03-2019 10:35:20

Essa foi a época da explosão das boates e casas noturnas e quando se popularizou as droga em Cuiabá

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Penha - 17-03-2019 10:12:29

Muito boa essa reportagem. Parabéns!

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3 comentários