Garcia Neto e o caso Campanhã (Final): Escutas clandestinas comprometiam o governo | MUVUCA POPULAR

Quarta-feira, 24 de Abril de 2019

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Desfecho inesperado

Garcia Neto e o caso Campanhã (Final): Escutas clandestinas comprometiam o governo

Morte do assessor da Casa Civil se deu porque ele acumulava documentos ameaçadores

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Caso Campanhã: A história NÃO contada do governador Garcia Neto (Parte 1)

História NÃO contada de Garcia Neto (Parte 2): Como o governador calou a imprensa de MT

O caso Campanhã estava na ordem do dia, a morte do assessor da Casa Civil do governo Garcia Neto sobrepôs inclusive o noticiário sobre os supostos esquemas envolvendo o governador em empréstimos fraudulentos e o Bemat. Campanhã se tornou uma ameaça a Garcia Neto porque teria acumulado documentos sobre esquemas da equipe de governo.

Os policiais do delegado regional Aluísio Franco não gostaram da decisão do governador, que quis chamar atenção ao convocar um delegado conhecido nacionalmente (Fleury).

A polícia de Campo Grande já sabia quem eram os autores e estavam tentando apanhar o mandante. O delegado mudou de ideia quanto a motivação do crime, e concluiu que não era crime de latrocínio e sim crime de mando. Mas o secretário Évora ainda mantinha a tese de que o crime fora devido a posse de terras na região de Coxim. O delegado regional não acreditava nisso.

O delegado Fleury assumiu o caso e em junho de 1978, e apresentou para a imprensa nacional o pistoleiro Orestes Ferraz dos Santos. O assassino Orestes Ferraz foi preso em um posto de gasolina em Ribeirão Preto (SP) e na mesma cidade enfrentou uma coletiva de imprensa. O assassino de Campanhã era um delinquente conhecido em Campo Grande e não foi difícil ser reconhecido, ele e o comparsa Hélio Rosales Filho (“Helinho”).

O comparsa Helinho foi preso dois meses depois na Praia da Boa Viagem, em Pernambuco, vivendo como hippie. O que ele disse é que fugiu quando percebeu que Orestes não iria segurar a bronca pela morte de Campanhã, e nem seria pago como tinha sido prometido. A polícia sabia que o assassinato havia custado R$50 mil. Isso era muito dinheiro para pequenos marginais da cidade que viviam de furtos na região de Campo Grande.

Orestes Ferraz chamou Helinho para fazer dinheiro em uma ‘parada’ pela cidade. Segundo Helinho eles esperaram atrás de um carro, e não entendeu quando Orestes não o furtou e ficou esperando alguma coisa, e foi quando viu um homem saindo da casa com seus filhos e o comparsa correndo até ele e atirando. Os dois correram, e Orestes disse que ele seria pago pelo serviço. O dinheiro não veio e eles não puderam ficar em Campo Grande.

A motivação eram dúzias de documentos envolvendo todo o staff do governador, e em especial o seu chefe Ruy Sant´Anna. Além dos documentos havia horas de gravação com conversas sobre os desvios de recursos públicos do governo

Àquela altura a polícia já sabia através do informante Bide quem eram os responsáveis, que se encontravam foragidos. A polícia apurou que o revolver usado no assassinato foi entregue a Orestes por seu irmão Erotides Santos. O irmão acabou desaparecendo com a prisão de Orestes, e seis meses depois uma ossada humana foi encontrada e atribuída a Erotides.

O assassino Orestes também tinha outro irmão na polícia militar, e que soubera do crime. Mas o cabo Santos acabou baleado em suposto confronto com marginais alguns meses depois.

Outra morte envolvendo o caso Campanhã foi a de Alcebiades, o Bide, a quem Orestes havia confessado todo o crime. Bide foi executado durante o dia em Dourados dirigindo seu Fiat 147 acompanhado da mulher quando foi ultrapassado por uma Brasília branca e ocupante disparou uma escopeta contra a cabeça de Bide. A morte ocorreu em 1981, quando os envolvidos no caso tentavam sair da cadeia.
Os pistoleiros responsáveis pela morte de Campanhã foram presos e condenados em 1978.

O réu confesso Orestes primeiro alegou que a confissão feita no Deic paulista fora feita através de tortura, e a entrevista à TV Tupi em que confirmava a morte encomendada também teria sido feita mediante coação do delegado Fleury.

A linha de defesa do advogado Luiz Carlos Saldanha era a denúncia de tortura que recaía sobre o delegado Fleury, e que dois ex-policiais teriam efetuado a prisão de outros pistoleiros responsáveis pela morte. Mas durante o julgamento conduzido pelo juiz Assis Pereira Rosa o réu Orestes não apenas confessou o crime como confirmou novamente o nome do mandante. Isso porque o mandante não o estaria protegendo como esperava, e nem pago o dinheiro pela morte encomendada.

O mandante apontado por Orestes Ferraz dos Santos era o seu sobrinho Ruy Sant´Anna dos Santos, o sub-Chefe da Casa Civil, e chefe de Campanhã. O assessor Levy Campanhã de alguma forma tinha se tornado um risco a candidatura de Ruy em 1978.

A motivação eram dúzias de documentos envolvendo todo o staff do governador, e em especial o seu chefe Ruy Sant´Anna. Além dos documentos havia horas de gravação com conversas sobre os desvios de recursos públicos do governo, e também outras inconfidências de ordem mais pessoal. Levy Campanhã tinha por hábito gravar escondido no seu gabinete.

O material de Levy nunca foi encontrado, e a polícia inclusive vasculhou sua casa em Campo Grande em busca de “indícios que levassem a conclusão do caso”.

O advogado Renê Siufi, que defendeu Helinho, e depois assumiu a defesa do então presidiário Ruy Sant´Anna no lugar do advogado Ricardo Trad, em 1981 apontou que era necessário seguir outra linha de investigação não acompanhada na época. A segurança pública deixou vazar para imprensa, e depois desmentiu que além de Ruy haveria mais três pessoas envolvidas, ou que queriam a morte de Levy, e uma delas era Archimedes Pereira Lima.

O jornal Diário de Mato Grosso, de Archimedes, teria sido feito com recursos públicos, e Campanhã teria as provas. A afirmação partiu do próprio Levy em um jantar com a presença do próprio secretário

O jornal Diário de Mato Grosso, de Archimedes, teria sido feito com recursos públicos, e Campanhã teria as provas

Archimedes, e do cunhado Wilson Antônio Correa Fontoura. O secretário negou tudo e apontou duas datas que não bateriam com essa denúncia, feita pelos jornais da mídia nacional como a que o prédio foi construído em 1975 e que ele foi nomeado secretário da Casa Civil em 1977.

O cunhado Wilson Antônio, sócio da irmã (esposa de Levy) não se lembrou dessa conversa, e nenhuma outra. A viúva de Levy, Rosa Maria, foi aconselhada pelo secretário Aloysio Évora a se manter longe de jornalistas porque eles a perseguiriam sempre com as mesmas perguntas que não levariam a nada. A viúva seguiu o conselho, mas três meses após a morte do marido, e como nada se resolvia, Rosa Maria chamou os jornalistas para dizer que a morte do marido envolvia muito dinheiro.

Desfecho

Curioso que décadas depois os irmãos, Wilson e Rosa Maria, tenham perdido 200 hectares de terra em Paranatinga e mais 200 hectares em Camapuã por usucapião, ou seja, moradores antigos das terras as requereram na Justiça porque os donos, mesmo com escritura passada em cartório, simplesmente tinham abandonado as propriedades.

A mídia nacional também estava interessada nas conexões do narcotráfico. A cocaína se tornava moda nas altas rodas carioca e paulistana, e os fornecedores eram de Campo Grande com envolvimento de autoridades de Cuiabá. O jornalista Percival de Souza investigou o assunto devido ao “Caso Ludinho” e previu que a cocaína ainda turbinaria as festas da elite cuiabana, o que de fato aconteceria nos anos 80.

A morte de Campanhã enterrrou a carreira política, e a vida social, de Ruy Sant´Anna. A família de Ruy não era tradicional em Campo Grande, na verdade ele era de Porto Murtinho, e não era uma família rica, e muito menos tinha bons relacionamentos. O ponto de contato com o mundo político, e elite mato-grossense, era Lúdio Coelho. Outro interlocutor era o senador Mendes Canale. O senador se assustou com o envolvimento do amigo no crime: “Ruy é uma pessoa fina, uma moça em matéria de educação”.

O que Ruy Sant´Anna precisava era de dinheiro para bancar a sua campanha na região de Porto Murtinho até Dourados. O que se entendeu na época era que Campanhã sabia desse caixa e Ruy se sentiu ameaçado. O risco o teria levado a contratar o seu tio temporão Orestes (tinha 25 anos contra 36 do sobrinho) a quem não mantinha contato devido ao histórico criminoso.

O tempo acabou reduzindo os personagens ao pó da história. Ruy Sant´Anna dos Santos foi encontrado morto em setembro de 2018, na sua casa na Rua Cedro em Campo Grande. Segundo a polícia, o corpo foi estava caído ao lado de um colchão colocado na sala da casa, e em avançado estágio de decomposição. Ruy morreu sozinho. Os vizinhos apenas chamaram a polícia devido ao mau cheiro. Ruy Sant´Anna sempre negou ser o mandante da morte de Levy Campanhã.

P.S. Indicado em 1974 pelo então presidente Ernesto Geisel, Garcia Neto assumiu o comando do Estado em 1975 e ficou no cargo de governador até 1978. Neste período, o governo Federal sancionou a lei que dividia o estado e criava Mato Grosso do Sul, porém a divisão de fato ocorreu em 1979, e Garcia Neto foi apontado como o governante que dividiu o estado.  Ele também foi prefeito de Cuiabá pela UDN em 1954. Em 1960, foi eleito vice-governador de Mato Grosso pela UDN na chapa de Correia da Costa para mandato de cinco anos. 

P.S.²: Em seu livro de registro 'Mato Grosso, estado solução", escreveu no prefácio que governou num dos períodos mais conturbados de Mato Grosso.

P.S³: Sergipano, Garcia Neto construiu sua carreira política em Mato Grosso. Morreu em 20 de novembro de 2009, aos 87 anos. Deixou 5 filhos, dois já falecidos. O que mais se destacou foi Robério Garcia (Berinho), dono da Engeglobal, que deixou diversas obras inacabadas no estado. O Neto, Fábio Garcia, é suplente de Senador e pretenso candidato a prefeitura de Cuiabá em 2020.

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COMENTÁRIOS

(2) COMENTÁRIOS

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Xoxa - 08-02-2019 08:02:24

Lamentável essa campanha suja que a turma do Mané Paletó faz contra Fabinho que nem tinha nascido na época com base em fofocas sem provas.

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Diego - 08-02-2019 06:30:34

O cara morreu porque fazia escutas clandestinas.... por falar nisso, e os irmãos Taques, que grampeou MAto Grosso inteiro? Vão pelo menos puxar uma cana?

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2 comentários