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História NÃO contada de Garcia Neto (Parte 2): Como o governador calou a imprensa de MT

Além de trazer jornalistas de outros estados, como Onofre Ribeiro, Garcia chegou a bancar um jornal para acusar o bispo comunista Dom Pedro Casaldáliga de assassinato

Da editoria especial / Muvuca Popular

O governo era de Garcia Neto  (1975-1978), pai de Robério Garcia e avô do atual suplente de senador, Fábio Garcia. Garcia estava envolto ao “Caso Campanhã”, que colocou Mato Grosso nas páginas policiais brasileiras, onde já vinha freqüentando por denuncias de corrupção e em plena crise da divisão do estado. Abalado, o chefe do executivo estadual resolveu reforçar a imprensa.

O presidente do Jornamat (Associação de jornalistas de MT), Jucá, tentava iniciativas para valorizar a profissão indo do salário até o curso de Comunicação Social na UFMT (o reitor-fundador Gabriel Novis Neves abriria o curso se tivesse orçamento para tal). Porém, Jucá foi acusado de nada fazer pela categoria profissional e se “apegar ao cargo de presidente para interesses escusos”. O que o fez largar o sindicato para então assumir o jornalista Jaques Brunini (O Social Democrata), mas Brunini ficou doente, e a DRT nomeou Ruy Sant´Anna para conduzir o sindicato até a eleição de Elpídio (jornal Equipe).

O jornalista Adelino Praieiro (Diário de Cuiabá) também negou a propina mensal paga pelo governo, e ficou indignado com o valor, considerado ridículo frente aos seus custos

A mídia nacional divulgou um esquema de subvenção ilegal (propina) entre o governo e a mídia local em 1976. O esquema tinha um documento de procedimentos da propina assinado por Ruy Sant´Anna. O jornal Diário de Corumbá não apenas assumiu que recebia R$4 mil/mês em troca de notícias favoráveis, e deixar de publicar notícias ruins, como apontou toda a mídia como participe do mesmo esquema. O detalhe que provocou indignação foi que a conta deveria ser feita em nome do combalido Instituto Previdenciário do Funcionalismo (Ipemat) e paga pelo banco Bemat.

O esquema da propina foi negado pela mídia regional. O jornalista Tales Jordão (O Diário de Mato Grosso) disse que a situação financeira dos jornais não era boa e seria melhor se o governo ajudasse, e quem pagava pela publicidade eram as construtoras, ou seja, as obras do governo seriam noticiadas se o jornal fosse pago.

A mesma negativa veio da TVCA através do diretor José Pedro, que não apenas negou a existência de propina mensal como corrigiu o valor do pronunciamento feito pelo governador em rede (Cuiabá, Corumbá e Campo Grande). A transmissão em rede teria custado apenas R$200 mil, ao invés da denúncia de que custou R$1 milhão. O valor era cobrado conforme a tabela e seus serviços estavam a disposição de qualquer um que não fosse comunista ou subversivo.

O jornalista Adelino Praieiro (Diário de Cuiabá) também negou a propina mensal paga pelo governo, e ficou indignado com o valor, considerado ridículo frente ao seu custo com a folha de pagamento de R$120 mil/mês.

As voltas com mais essa crise, o governador Garcia Neto afastou Ruy Sant´Anna da diretoria da Sermat (Secretaria de comunicação), e o deixou apenas como Sub-Chefe da Casa Civil (ele acumulava as duas funções desde 1975) e trouxe de Campo Grande o advogado Levy Campanhã de Souza. O advogado de 35 anos começou na política como militante do MDB, e não conseguiu indicação para a eleição estadual de 1974. Levy Campanhã acabou nomeado delegado de ensino em Campo Grande.

O novo diretor do Sermat foi avalizado por políticos da região sul, e na capital começou a preparar nova licitação para publicidade do governo. A oposição não se interessou por essa tentativa de moralização porque o governo sempre ignorou os pedidos de explicação de gastos com comunicação. O setor era uma caixa-preta e apenas o governo o entendia.

O governador Garcia Neto nomeou novo secretário da Casa Civil. O novo chefe era Archimedes Pereira Lima, o jornalista mais antigo do estado em atividade e que tinha acabado de inaugurar seu novo jornal, o Diário de Mato Grosso (o quarto de Cuiabá).

O diretor de comunicação social pediu ajuda para o jornalista político de Brasília Onofre Ribeiro da Silva. O novo jornalista acabou sendo nomeado diretor do Sermat um ano depois

O Diário de Mato Grosso circulou com 5 mil exemplares e era o único com telefoto, radiofoto e teletipo, os demais tinham apenas telex e as fotos vinham por malote aéreo. O jornal tinha como superintendente Lenine (Presidente da Fundação Cultural), e o secretário-geral Mauro Cid (Presidente da Metamat).

A mídia nacional estranhou que na sua primeira edição o jornal Diário de Mato Grosso se dedicou a apontar como responsável pela morte do padre jesuíta João Bosco Penido Burnier o Bispo “comunista” Dom Pedro Maria Casaldáliga. O governo estadual chegou a pedir a sua expulsão do país por atividades subversivas contra o governo. Porém, o Serviço Nacional de Informações (SNI) rechaçou as denúncias. Curioso que as denúncias contra Pedro Pedrossian tenham sido aceitas pelo SNI.

A mídia nacional estranhou que na sua primeira edição o jornal Diário de Mato Grosso se dedicou a apontar como responsável pela morte do padre jesuíta João Bosco Penido Burnier o Bispo “comunista” Dom Pedro Maria Casaldáliga

O ex-governador Pedrossian rompeu com Garcia Neto ainda em 1976, e Garcia Neto o temia devido a sua influência no sul do estado e isso poderia influenciar as eleições ao Senado em 1979 (Garcia Neto estava tão enfraquecido que se tornou suplente de José Benedito Canelas). O jornal Correio da Imprensa, de Campo Grande, até então aliado de Pedrossian se tornou aliado de primeira hora de Garcia Neto.

A política trançava suas teias pelo estado e Levy Campanhã seguia trabalhando na Sermat. O diretor de comunicação social pediu ajuda para o jornalista político de Brasília Onofre Ribeiro da Silva. O novo jornalista acabou sendo nomeado diretor do Sermat um ano depois, enquanto Levy era nomeado assessor especial da Casa Civil. Onofre Ribeiro depois acabaria indo dirigir o jornal Diário de Mato Grosso.

Segundo as memórias de Onofre Ribeiro, a cada quinzena ele pegava o carro após o expediente de sexta-feira e dirigia por dezoito horas até Brasília para rever a família. Os seus superiores, Levy e Ruy, pegavam o avião e uma hora depois estavam em suas residências. O governo na época dispunha de uma frota de dez aviões, e dois eram reservados para assessores de Campo Grande.

A morte de Levy Campanhã chocou Mato Grosso.

O secretário de Segurança Pública Aloysio Madeira Évora deveria fechar o caso ainda em janeiro de 1978, mas não conseguiu, e em março o governador Garcia Neto procurou o governador paulista Paulo Egydio para ceder a equipe da Divisão de Investigações Criminais (Deic) que tinha solucionado o “Caso Ludinho” em 1976.

A equipe convocada por Mato Grosso era composta pelo delegado Jair Cesário da Silva, o escrivão Gilberto Cesário da Silva e os investigadores Wilson Rodrigues e Kiyobumi Fukushima. A equipe era supervisionada pelo delegado Sérgio Fernando Paranhos Fleury, o já famoso delegado Fleury.

(Continua...)

Leia aqui a parte 1


Fonte: MUVUCA POPULAR

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