Igreja Batista Getsemâni

Governo Bolsonaro começou a cair, afirmam deputados

Inicia-se a formação de um consenso entre os membros da bancada de sustentação do presidente que “seu governo está ficando insustentável”

Albízzia Lebbeck, para o Muvuca Popular
De Brasília (Agência RBC News)

 

Um deputado federal do PSL, com quem conversamos no plenário da Câmara, durante a Comissão Geral que ouve o ministro da Educação Abraham Weintraup, cravou: “o governo do meu presidente Jair Bolsonaro começou a cair nesta quarta-feira”. A opinião em off do parlamentar governista está refletindo um sentimento ruim para a base de sustentação do presidente, mas, sobretudo, para estabilidade do país. “Seu governo está ficando insustentável”, acrescentou o congressista.

A preocupação do parlamentar ocorre diante de situações que promovem fortes desgastes do presidente com sua base. A última delas foi o dito e desdito de que havia determinado a suspensão dos cortes na Educação. “Se o governo não sustenta o que o presidente falou na frente de 12 líderes parlamentares não sou eu que vou passar por mentiroso", afirmou o deputado Capitão Wagner (CE), líder do PROS, um dos partidos da base do governo.

O parlamentar se refere a reunião com o presidente Bolsonaro, na terça-feira (14), na qual anunciou o cancelamento dos cortes. Wagner, assim como outros líderes - do PSL, Delegado Waldir (GO), do Novo, Marcel Van Hattem (RS), do Podemos, José Nelto (GO), e do Cidadania, Daniel Coelho (PE) - distribuíram a informação, que logo se espalhou. Momentos depois veio o desmentido. Primeiro da Casa Civil, em seguida do ministério da Educação e na sequência pelo Ministério da Economia.

A reportagem apurou que a promessa do presidente dos líderes de rever os cortes só não ocorreu por imposição do próprio Ministério da Economia. O titular da pasta, Paulo Guedes, tratou de imediatamente desautorizar o presidente, que foi obrigado a desmentir. Mas aí o leite já estava derramado. Os líderes dos partidos aliados ficaram extremamente revoltados com Bolsonaro.

“Se boato ocorreu e se o boato é barato, o boato é do governo. Não vou admitir, sendo aliado do governo, ser chamado lá no Palácio do Planalto para tratar uma questão séria como essa, presenciar o presidente da República pegar um celular, ligar para o ministro na presença de vários líderes partidários e, com todas as letras, o presidente disse ‘a partir de agora o corte está suspenso’”, acrescentou o Capitão Wagner, em forte pronunciamento da tribuna do plenário da Câmara, na sessão matutina desta quarta.

Este episódio foi a gota d’água. Outros fatos estão a confirmar as suspeitas dos parlamentares membros dos partidos situacionistas de que o governo vem cavando ele mesmo a sua própria cova, por conta das trapalhadas do presidente. Com isto, Bolsonaro perde a cada dia apoio dentro do Congresso Nacional. Nas últimas votações mais importantes, ele perdeu de lavada. À exceção da proposta de reforma da Previdência, que caminha a passos largos, navegando no vento favorável da forte propaganda e arregimentações nada republicanas de deputados, todas as outras grandes questões de interesse do governo estão caindo por terra.

A maior delas é a Medida Provisória 870, primeiro ato de Bolsonaro ao assumir a Presidência, que reorganizou a estrutura administrativa do Executivo. Na comissão especial mista que debateu a MP, o governo perdeu feio. A proposta iria ao plenário da Câmara, mas como há resistências do Palácio do Planalto em pontos de interesse da oposição, o presidente da Casa, deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), segurou a pauta. Resultado: se não for votada até o dia 3 de junho, a MP perde validade e o governo terá que recuar ao ministério

Na esteira da votação da MP 870, se aprofundaram as divergências dos deputados governistas, que se aliaram aos opositores, para derrotar as pretensões do ministro da Justiça, Sérgio Moro, de manter seus super-poderes, amealhando para si o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). O Palácio do Planalto pouco fez para ajudar Moro e esta situação gerou um desconforto do ex-juiz com o presidente. Foi aí que morou outro perigo.

Não se sabe ao certo se o presidente Bolsonaro quis agradar ou fritar Moro, mas sua declaração de que havia compromisso de indicá-lo para a próxima vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), aprofundou desconfianças de que o ex-juiz atuou em suas decisões jurídicas de forma política. Moro nego a negociação, contudo pouco adiantou. O estrago já estava feito, sobretudo para Bolsonaro, que passou recibo de que, no mínimo, emprega a “velha política” que afirmava, especialmente na campanha eleitora, combater.

Mas este sentimento ante a perspectiva de fracasso do governo de Jair Bolsonaro começou desde uma série de desgastes que ele próprio tem promovido, potencializados por seus filhos e outras pessoas fora, porém com forte influência dentro do governo. A principal delas é o astrólogo e escritor Olavo de Carvalho, que indicou nomes importantes para o ministério, sobretudo, o de Relações Exteriores e o da Educação. Carvalho, apesar de morar bem longe, na Virgínia, Estados Unidos, dita muito do que acontece no Palácio do Planalto.

E foi pelas mãos de Olavo de Carvalho que o governo foi jogado a um aparentemente irremediável confronto com os ministros militares. Carvalho, até a semana passada, atacou fortemente os generais que são principais auxiliares do governo. A temperatura chegou a ser elevada às alturas, especialmente quanto o presidente, ao invés de mediar o conflito, o potencializou tecendo elogios e fortalecendo as posições do astrólogo, que é considerado o guru do clã Bolsonaro.

É envolto nesta conjuntura que o presidente Jair Bolsonaro se depara com a primeira grande manifestação contra seu governo: a greve nacional dos profissionais da educação, que teve a adesão dos estudantes, país de alunos e outros profissionais, levando às ruas de todo o país mais de 1,5 milhão de pessoas. Bolsonaro tratou de minimizar os protestos, chamando os manifestantes de “idiotas” e “massa de manobra de uma minoria”.

Até o fechamento desta matéria, não havia ainda terminada a participação do ministro da Educação no plenário da Câmara dos Deputados. Abraham Weintrub fez uma apresentação de pouco mais de meia hora e depois se seguiram os questionamentos dos parlamentares. Apesar da revolta com o presidente, boa parte dos deputados da situação procurou ajudar o ministro, que foi bastante fustigado pela oposição.

O resultado dessa presença do ministro na Câmara, o rescaldo das manifestações de hoje e os futuros pronunciamentos do presidente deverão descortinar novos acontecimentos aqui na Praça dos Três Poderes. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.


Fonte: MUVUCA POPULAR

Visite o website: https://muvucapopular.com.br