Igreja Batista Getsemâni

As eternas lutas de um homem negro

Nasci em Mimoso, distrito bucólico de Santo Antônio de Leverger, terras de Rondon, o grande desbravador. Vim para cidade grande com 12 anos e trabalhei em dezenas de lugares, o qual mais me marcou foi a de cobrador de uma empresa de serviços póstumos, isso nos áureos anos 70. Trafegava 50 quilômetros dia, na velha barra forte, fazendo cobrança de mensalidade de serviços póstumos, que as pessoas viviam para trabalhar e manter em dia, para, um dia, ter um local seguro quando morressem.
 
Em 1995, sem estudo, mas com ensino da vida, iniciei uma guinada em minha vida quando conheci o casal, Heraldo Vieira Passos e Rosângela Campos, educadores e empresários do ramo.
 
De forma resumida dali em diante comecei a trabalhar no setor educacional, onde tive oportunidade, pela primeira vez, atrelar trabalho com estudo. Em 2004 fui tentar a minha própria empresa no setor.
 
Nessas duas décadas consegui concluir o ensino médio, superior e especializações e com muito suor e dedicação, conquistar realizações profissionais. Conquistei além de estudos e conhecimentos, inevitavelmente realizações de cunho patrimonial.
 
Em 62 anos de idade lembro de ter passado por inúmeras provações e preconceitos por ser um homem negro, mas nada a que eu venho passando nos últimos anos, na qual quero deixar a reflexão.
 
Conquistei em 2016 o tão disputado e honroso cargo de presidente de uma autarquia federal, sendo reconduzido no voto em 2018. Fui atacado várias vezes por oposições, “que eu já teria conseguido chegar longe demais, e que já estava bom para alguém da minha cor”. Isso eu ouvi várias vezes.
 
Inclusive a penúltima que tive que suportar foi a de um membro da diretoria do meu conselho, propalar injúrias a um funcionário e um profissional de destaque no setor por sua cor, inclusive já ele já está respondendo na justiça por tais crimes.
 
Pensava eu, “se ele pensa assim deles, o que ele imagina do presidente da autarquia? Não deve ser muito diferente”.
 
Por fim, agora, sou duramente atacado por um infame factoide, em uma ação subliminar de racismo. Estou sendo acusado de ser laranja de um homem branco, numa operação, denominada Overlap, contra a minha empresa Ceteps, que está há 16 anos no mercado educacional, sendo referência no setor em 3 estados.
 
Venho publicamente, por meio deste artigo, explicar o que nem precisaria, mas terei que fazer por força das centenas de anos de um preconceito enraizado em nossa sociedade. Não! Não sou laranja de ninguém. Trabalhei muito para chegar onde estou hoje, no campo empresarial e até a conquistar por duas vezes, a presidência de um órgão de classe que representa 13 mil profissionais.
 
Terei que deixar para outro artigo os comentários feitos pelas autoridades no dia da operação midiática: “Nossa, ele tem um carrão, hein?! Será que é dele mesmo ou é do patrão? ”
 
Tenho orgulho das minhas vitórias nesta vida. O pouco que conquistei, inclusive meu sócio, que, diga-se de passagem, também não é laranja de ninguém, nossos parceiros e colaboradores, são lícitos. A cada dia que passa muitas atitudes fazem lembrar como é difícil, para muitas pessoas, deparar com um negro que pode ser empresário, bem-sucedido. Dirigente classista e com posses patrimoniais.
 
Esta investigação conduzida por alguns servidores da Polícia Civil só irá provar o que todo mundo já sabe. O preconceito ainda impera em uma sociedade direcionada a crer em estereótipos que não contribuem para diminuir a desigualdade social entre negros, mulheres, indígenas, entre outras minorias.
 
*Prof. Benedito Odario, negro, mimosiano, gestor superior em negócios ULBRA, pós-graduando em Perícias Judiciais - FACIPAN - Presidente do CRECI/MT 2016/2021 e sócio da Rede Ceteps
 
 
 

Fonte: MUVUCA POPULAR

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