Democracia em Vertigem, politicamente, não é lá grande coisa | MUVUCA POPULAR

Quarta-feira, 13 de Novembro de 2019

POLÍTICA Domingo, 23 de Junho de 2019, 18h:02 | - A | + A




Documentário

Democracia em Vertigem, politicamente, não é lá grande coisa

Mas impacta como cinema e o ineditismo de uma grande reportagem jornalística, emoldurada, infelizmente, pela despolitização de uma pretensa diretora politizada


Da Sucursal de Brasília

 

Estou vivendo nos últimos dias, semanas, meses e anos em grandes expectativas. De algumas formas e de outras, ando esperando mais que o que se apresenta em poucas horas como trivial. Vou dar algum exemplo: sempre torci o pescoço para palavras de ordem tão pueris quanto emblemática para o que se transformou essa esquerda pós modernidade e pós verdade. “Não vai ter golpe!”, “Fora Temer!”, “Fascistas, machistas, racistas, não passarão!”

Fui a todas a manifestações aqui em Brasília da esquerda e o que vi, em geral, foi um bando de militantes vislumbrados, mas sem nenhuma consequência. Um pessoal mais preocupado em fazer selfies que dar licitude ao que saia pela boca. Palavras de ordem sem nenhuma empolgação, a não ser emoldurar suas postagens nas redes sociais. Esta coisa aí da “desimportância” dos fatos a prevalecer essas vastas emoções e pensamentos imperfeitos, como diria Rubem Fonseca: sonhos, apenas sonhos, daqueles – diria Raul Seixas – que se sonha só, em que pese em meio a multidões de milhares.

Talvez esteja aí o grande desafio para a esquerda em geral: fazer sonhos de multidões, para transformá-los em realidade. Promover utopia e transformá-la em realidade. Ou, na célebre frase de Rabótcheie Dielo, sempre atribuída equivocadamente a Vladimir Lênin: “É preciso sonhar, mas com a condição de crer em nosso sonho, de observar com atenção a vida real, de confrontar a observação com nosso sonho, de realizar escrupulosamente nossas fantasias. Sonhos, acredite neles”, citada lá no célebre “O Que Fazer?”, um dos clássicos do leninismo.

É com esse espírito que acabo de assistir o tão festejado “Democracia em Vertigem”, de Petra Costa. Faça, antes de continuar, alguma ressalva: quem viu “O Processo”, de Maria Augusta Ramos, vai, inevitavelmente, fazer uma comparação. E ela é necessária, creio. Não de o que é ou não melhor - ou menos melhor. É, primeiramente, o que é melhor cinema. Aqui não dá comparação: são dois filmes espetaculares na narrativa, no ineditismo para um documentário - que como jornalista gosto de dizer: uma grande reportagem.

Contudo dou um ponto para “O Processo”, que não tem nada de narrador, a não ser as imagens percorrendo a cronologia dos fatos, eles contados por seus protagonistas – ou ao menos aqueles que se dispuseram ser entrevistados. Para não ser tão antipático, arriscaria dizer que um completaria o outro, como na realidade pode-se verificar quem assistiu aos dois.

“Democracia em Vertigem”, porém, tem seus grandes méritos. A narrativa, por exemplo, com a diretora contando em primeira pessoa a história desses últimos cinco anos da vida nacional e indo buscar no seu atavismo os entrelaçares de sua própria história, desde seus primeiros anos em 1985, ano da redemocratização, de seus pais e demais parentes – a rica família Andrade Gutierrez - envoltos nos acontecimentos anteriores e atuais do país.

Ela começa, por exemplo, falando da luta dos pais num Brasil mergulhado na escuridão dos anos de chumbo, com eles presos, torturados, exilados e depois clandestinos. Em sequência vem nos contar que seu nome, Petra, é uma homenagem a Pedro Pomar. Mas não menciona ser este o líder comunista trucidado pela ditadura em 1976, no conhecido e triste episódio Chacina da Lapa, onde os militares destruíram metade do comitê central do Partido Comunista do Brasil.

Petra Costa, aliás, “passeia” de forma displicente sobres esse momento nefasto da História Nacional, contextualizando muito pouco o que significou a luta dos próprios pais. Fica parecendo que houve, aos olhos dela (que pode não ter atentado melhor) que foi uma luta menor. Mesma percepção ela não dispensa ao moralismo anticorrupção. Aqui eu fico com as palavras de Dafne Ashton Vital Brazil: “Apesar de ter imagens históricas como o discurso de defesa da Dilma e do Lula falando com o povo em São Bernardo, o filme ‘Democracia em Vertigem’ infelizmente adota a narrativa moralista em relação à guerra anticorrupção, que foi justamente usada para nos derrotar. Enquanto a esquerda não entender que não leva a nada esse moralismo, e ele é a nossa derrocada, fica difícil avançar. Sempre, em todos as épocas, o moralismo foi usado contra a esquerda. Precisamos aprender com isso para não cair nessa narrativa esparrela. Corrupção nesse país só existe se for cometida por nós e mais, corrupção é inerente ao sistema capitalista e ponto. Fora esses parênteses, tem as imagens maravilhosas, vale assistir”.

Eu acrescentaria que, além da narrativa moralista anticorrupção, “Democracia em Vertigem” tem o viés despolitizado da Petra Costa, o que é desagradável para uma pretensamente politizada. Por vezes quase chorosa, ela tenta transitar por um certo imparcialismo e oferecer uma análise ampla e não rara amplificada dos processos antes, durante e pós impeachment de Dilma Rousseff, até dar lá nos momentos anteriores e durante a entrega de Lula após a resistência no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo. É aqui que vamos encontrar, em termo de cinema, sobretudo imagens, parte dos méritos do documentário, como uma grande reportagem: as imagens inéditas, bem como as conversas de Lula com seus aliados e os desdobramentos até ele seguir para Curitiba no helicóptero da Polícia Federal para a solitária.

No resto, Petra Costa faz uma narrativa recuada, quase que se pedindo desculpas por termos um partido popular e progressista que chegou ao poder, “cometeu erros” e deveria se penitenciar para sempre, colaborando com a narrativa das forças que tentam sempre destruir o país. Petra, aliás, é muito pouco crítica a essas forças e, é possível perceber, uma certa complacência ante elas à medida que não aprofunda (seria por conta de sua despolitização?) no significado da atuação dessas forças na destruição da democracia brasileira. É um painel.

Ela é por vezes romântica, idealista e, repito, chorosa. É lícito preencher essa carga emocional num filme, mesmo um documentário. É, aqui oportuno, intuir sua pretensão: carregar nas emoções para fisgar o espectador. E até mesmo considerar que esse seu propósito margeia a obra para lhe conferir um caráter romântico. E ainda nos permitir, em seu mosaico de imagens e vozes, o prolongamento da percepção e fazer a todos refletir. Mas insisto: politicamente eu esperava muito mais.

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COMENTÁRIOS

(4) COMENTÁRIOS

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Olavo - 24-06-2019 12:19:57

*LULA É O EX-PRESIDENTE MAIS CORRUPTO DA HISTÓRIA* * 5 VEZES RÉU * 11 INQUÉRITOS EM ANDAMENTO * 13 AMIGOS PRESOS * 6 PARENTES CITADOS EM CRIMES * 211 ACUSAÇÕES DE LAVAGEM DE DINHEIRO * 17 ACUSAÇÕES DE CORRUPÇÃO PASSIVA * 4 ACUSAÇÕES DE TRÁFICO DE INFLUÊNCIA * 6 IMÓVEIS SUSPEITOS OCULTADOS * R$ 50 MILHÕES EM PROPINA * CONDENADO A MAIS DE 9 ANOS DE PRISÃO * TODAS AS CONTAS E BENS BLOQUEADOS

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Diego - 24-06-2019 11:03:58

Assisti ontem... Meio fraquinho, deveria pintar os bozistas de bandidos, como fez no outro filme da netflix que colocou os adversários do atual presidente todos como bandidos

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alexandre - 23-06-2019 18:41:42

Assisti, totalmente sem noção, pintando o mundo de vermelho e vitimização. Totalmente politizado, escondeu os erros da esquerda, parece horário político do PT, no governo Dilma , um mundo maravilhoso que não combina com a realidade dos fatos históricos..

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Carlos Nunes - 23-06-2019 18:35:44

Não é a DEMOCRACIA no Brasil que tá em vertigem, essa tá de vento em popa...o que fracassou de vez foram os Sistemas Capitalista e Socialista/Comunista...tão mortos, só falta enterrar. Dizem o melhor Sistema seria o COOPERATIVISTA. Caberia aos Doutores e Mestres em Cooperativismo, traçar o perfil de como seria um Sistema Cooperativista Nacional...produção, consumo, governo, administração, etc. Um Governo Cooperativista. Bem, que esses especialistas em COOPERATIVISMO, podiam formular um Ante-Projeto e apresentar pro povo brasileiro. Talvez seja a melhor forma de distribuir as riquezas do país, pra todos...Precisaria reinventar o Brasil...

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4 comentários