Jornalista que denunciou "maníaco do Parlamento" pede punição | MUVUCA POPULAR

Quinta-feira, 17 de Outubro de 2019

POLÍTICA Terça-feira, 08 de Outubro de 2019, 19h:13 | - A | + A




Assédio Sexual

Jornalista que denunciou "maníaco do Parlamento" pede punição

Rose Domingues declarou que é inaceitável assediador denunciado por 22 mulheres continuar impune


redacaomuvuca@gmail.com

Jornalista Rose Domingues / Foto: Rodinei Crescêncio

A jornalista Rose Domingues declarou, por meio de um artigo, que o “maníaco do Parlamento” deve ser punido o mais rápido possível, afinal, o criminoso já foi denunciado por 22 mulheres e continua impune na sociedade, no entanto, o grupo de assediadas deve lutar fortemente para a condenação do “macho escroto”.

Segundo a comunicadora, é inaceitável a forma como o comportamento do assediador era normatizado. “Ele sempre foi assim, era normal dele”, diziam as pessoas sobre as importunações sexuais causadas pelo criminoso. “Embora inadequado e repulsivo, o comportamento dele era aceito nas rodas de profissionais da imprensa”, afirmou.

Apesar de ter compartilhado a situação com o Brasil inteiro, a jornalista relatou em seu texto como foi negligenciada pela Polícia quando foi até à Delegacia das Mulheres para prestar queixa. “A questão é que se não estou na iminência de um assassinato declarado, não sou o público para a Lei Maria da Penha e não consigo o atendimento que preciso”, pontuou Rose.

O fato da Delegacia das Mulheres priorizar casos mais graves e possuir uma estrutura mínima para atender vítimas, preocupa as mulheres de todo o país, pois a maioria dos casos de agressão e feminicídio começam com pequenas atitudes, que são justamente desprezadas pelo órgão.

“De todo modo, é importante deixar claro que importunação sexual é crime. No Rio de Janeiro, a cada 24 horas duas mulheres são vítimas de crime sexual, isso inclui assédio, cantadas agressivas e passadas de mão. No mais, atenção macho-alfa, cantada não é elogio e pode dar cadeia! Tem mais, troco seu "elogio" por respeito, por exemplo”, finalizou a vítima.

Confira o artigo na íntegra:

 

Após o meu artigo “24 centímetros fazem sentido para você?” houve um tsunami no meio jornalístico de Mato Grosso. Descobrimos que o homem que queria me mandar fotos do órgão genital já havia feito dezenas de outras vítimas por importunação sexual ao longo dos últimos anos.

Embora inadequado e repulsivo, o comportamento dele era aceito nas rodas de profissionais da imprensa. Muitas jornalistas comentaram posteriormente comigo ou em grupos que “ele sempre foi assim, que era normal dele”. Quem recebeu conteúdo pornográfico apagou, bloqueou o número e silenciou o caso.

Aliás, eu também faria isso, se não fosse pela decisão de escrever o artigo e expor a minha situação de nojo e humilhação (sem identificá-lo). Mas ao longo da semana foram tantas revelações sobre o passado desse homem que não me restou dúvida: a máscara do macho escroto finalmente caiu.

Na segunda, um dia após a publicação, ficamos sabendo que ele é investigado pela polícia do Espírito Santo por assediar colegas de profissão, ao todo, foram 10 vítimas na Grande Vitória. Em Cuiabá, 12 jornalistas registraram queixa na polícia por diversos crimes: importunação sexual, ameaça, tentativa de estupro e estupro.

Se tudo isso atingiu a vida dele como um míssil, também fez o mesmo com a minha. Fiquei muito abalada emocionalmente por conta da repercussão do artigo e das revelações a partir dele. Também tive medo pela minha segurança. Afinal, quem garante que não haverá um ato de vingança contra mim, meus filhos e o meu patrimônio?

De início não pensei em procurar ajuda policial, porque já tive experiências frustrantes na Delegacia da Mulher. “Ele te bateu?”, “Ele te ameaçou de morte?”, “Ele ameaçou seus filhos?”. A questão é que se não estou na iminência de um assassinato declarado, não sou o público para a Lei Maria da Penha e não consigo o atendimento que preciso da delegacia, que tem uma estrutura mínima e prioriza casos mais graves.

Consigo entender isso, mas não concordo. Porque quando o Estado age preventivamente, coíbe atitudes que passo a passo vão se transformar em um ato de violência consumado, em um estupro ou tentativa de estupro. Uma vez na delegacia, a gente consegue se identificar com as personagens da série Inacreditável (da Netflix), que precisam narrar repetidas vezes a cena grotesca do estupro.

Meu caso é menos grave e já me disseram para não criar expectativas. Talvez o homem que fez isso comigo (e com outras mulheres) tenha bons argumentos, afinal, era meia-noite e como a carruagem da Cinderela virou abóbora nesse horário, ele achou que estava permitido falar do pênis gigante dele e querer me mandar fotos pornográficas (sem o meu consentimento, que fique claro).

Cheguei à unidade policial frágil, assustada, consegui sair do trabalho às 16h30 e estava lá por volta das 17h. O fato de ter sido acompanhada por algumas amigas me ajudou a romper a barreira e denunciar. Narrei o acontecimento, mostrei as mensagens, porém me informaram que fechariam dentro de alguns minutos e eu teria de voltar outro dia para representá-lo.

Ou seja, teria que pedir novamente no trabalho para sair durante o expediente, porque a delegacia só funciona em horário comercial e não há atendimento durante o almoço. Não sei o que cada fase significa, nem como funciona o trâmite processual entre dar queixa e chegar à justiça, mas preferi voltar. No outro dia acabei ficando a tarde toda, porque tive que narrar outra vez, mostrar novamente as mensagens e decidiram que seria bom pedir uma medida protetiva. Achei interessante, porque com ela, caso o homem que eu denunciei chegue perto de mim, posso acionar a polícia ou a segurança (em caso de locais públicos, por exemplo).

Imagine alguém com raiva. Pode ser que ele esteja e queria descontar. Não sei do que um homem acuado é capaz. Mesmo com aquela demora toda, me senti relativamente acolhida e satisfeita com a preocupação da escrivã, mas qual não foi a minha surpresa ao receber, no outro dia, uma mensagem pedindo para eu ligar na delegacia. “A senhora sabe que não tem direito a medida protetiva, não sabe?”. Não, eu não sei, não sou policial, escrivã de polícia, nem advogada, não estou por dentro dos meus direitos segundo a Lei Maria da Penha. “Não apanhou, não sofreu ameaça, não teve relações com o denunciado, não está na tutela da lei”.

Questionei se a pessoa que me atendeu não deveria saber disso e não eu, a vítima, porque foi ela quem propôs e entendeu que seria melhor assim. Mas essa mulher (que não anotei o nome) insistiu que não mandaria aquilo para o juiz e pronto. Caso insistisse, me mandou arrumar um advogado particular. Bem seca assim.

Enfim, estou sem qualquer segurança extra e me sentindo muito exposta. Mas conto com a ajuda divina, que é onipresente! Em relação às denúncias, não sabemos ainda o desdobramento. A minha única certeza: vai demorar. Por outro lado, há investigações em andamento, em Cuiabá e no Espírito Santo.

Apesar das dificuldades, tivemos coragem de fazer alguma coisa que interrompa a conduta abusiva dele (ao menos estamos tentando). Porque não é normal, nem aceitável o que ele vem fazendo com as mulheres. Promovemos uma discussão saudável entre os nossos pares sobre o que é ou não permitido nas relações. Fiquei particularmente feliz em receber tantos feedbacks positivos de homens! E triste em observar falas machistas em mulheres.

De todo modo, é importante deixar claro que importunação sexual é crime. No Rio de Janeiro, a cada 24 horas duas mulheres são vítimas de crime sexual, isso inclui assédio, cantadas agressivas e passadas de mão. A lei que tipificou esse crime completou um ano em vigor no dia 25 de setembro deste ano, é recente, e traz inovações, entre elas, que o agressor não poderá pagar fiança e poderá ficar preso de um a cinco anos.

Como jornalistas e formadoras de opinião, o grupo de mulheres que o denunciou pretende cobrar as autoridades para que isso não fique por isso mesmo, para que a recente legislação seja aplicada. No mais, atenção macho-alfa, cantada não é elogio e pode dar cadeia! Tem mais, troco seu "elogio" por respeito, por exemplo.

Rose Domingues Reis é jornalista graduada pela UFMT, especialista em Liderança e Coaching – MBA pela Unic, com formação em Psicologia Positiva pelo Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento (IPPC) de São Paulo. E-mail: rosidomingues@gmail.com

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COMENTÁRIOS

(5) COMENTÁRIOS

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Felipa - 09-10-2019 12:49:55

Excelente, esclarecedor e educador o texto

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Tiane - 09-10-2019 12:46:17

Bem explicado! E bem questionável por que será que não aconteceu nada com ele??

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Jandira - 09-10-2019 12:43:50

Acho estranho que nos dias atuais as mulheres parecem não ter pais, filhos, irmãos, maridos, namorados que possam dialogar com seus agressores. Já que a justiça não faz nada

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Robson - 09-10-2019 12:39:57

Ele tem dinheiro??

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Baco - 09-10-2019 09:56:27

Realmente, como é que pode mais de 20 mulheres esclarecidas (jornalistas) podem estarem errada ou mentirem e só esse lixo estar falando a verdade. A justiça tem que fazer valer

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5 comentários