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Quinta-feira, 17 de Outubro de 2019

POLÍTICA Segunda-feira, 07 de Outubro de 2019, 17h:40 | - A | + A




“Algodão pela Vida”

Produtores fazem campanha contra o câncer, mas não dispensam uso de agrotóxicos

Exposição aos agrotóxicos causa inúmeros efeitos à saúde e está ligada a vários tipos de câncer


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 Foto: Divulgação 

Os produtores de Mato Grosso decidiram apoiar o Outubro Rosa e veiculam a campanha “Algodão pela Vida”, que visa alertar as mulheres sobre a importância da prevenção e do diagnóstico precoce do câncer de mama e do colo do útero. Entretanto, a iniciativa é um tanto quanto contraditória, já que o setor não abre mão do uso de agrotóxicos.

Conforme pesquisa encomendada pelo Ministério da Saúde e realizada pelo Instituto Butantã em dez agrotóxicos de largo uso no país, abamectina, acefato, alfacipermetrina, bendiocarb, carbofurano, diazinon, etofenprox, glifosato, malathion e piripoxifem, mostrou que os pesticidas são extremamente tóxicos ao meio ambiente e à vida em qualquer concentração.

“Não existem quantidades seguras. Se (os agrotóxicos) não matam, causam anomalias. Nenhum peixe testado se manteve saudável”, afirmou a imunologista Mônica Lopes-Ferreira, diretora do Laboratório Especial de Toxinologia Aplicada, responsável pela pesquisa, que utilizou embriões de peixes nos testes.

Segundo o professor Wanderlei Pignati, do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal de Mato Grosso e abrasquiano do Grupo Temático Saúde do Trabalhador, no estado a exposição aos agrotóxicos é de 67 litros, 10 vezes maior do que a média nacional, que é de 7,3 litros por pessoa.

Em suas pesquisas de campo nas cidades de Lucas do Rio Verde, Campo Verde, Sapezal, Campo Novo do Parecis e Campos de Julio, o professor também constatou que as leis e normas impostas não são cumpridas. Sendo que, em áreas de áreas de amortecimento, por exemplo, que são pontos de distância previstos entre as plantações e as áreas de preservação, estipulada em 90 metros de distância, geralmente não chegam nem a 10 metros na prática.

“Em locais que há intoxicação na água ao menos 4 crianças a cada 100 mil nascidos vivos têm má formação. Em algumas cidades de Mato Grosso chega a 37 com má-formação”, informou em audiência que aconteceu no início do ano para debater o tema.

Uma consequência cruel do alto consumo de agrotóxico no estado foi denunciada em 2011, quando a pesquisadora Danielly Palma apresentou uma tese onde avaliou o impacto dos agrotóxicos em mães que estavam amamentando na cidade de Lucas do Rio Verde.

O estudo, que foi coordenado pelo professor Pignati, coletou amostras em mulheres de Lucas do Rio Verde, um dos maiores produtores de soja do país, e em 100% delas foi encontrado ao menos um tipo de princípio ativo desses produtos. Em algumas, até seis tipos.

Porém, na contramão do combate ao uso de agrotóxicos, os produtores se engajaram na campanha do Outubro Rosa e tentam alertar as mulheres sobre como diagnosticar o câncer.

A ação estará concentrada nas cidades onde se localizam os maiores produtores de algodão do país. Na Bahia, as cidades de Barreiras e Luís Eduardo Magalhães; e no Mato Grosso, as cidades de Primavera do Leste, Campo Verde, Sorriso, Lucas do Rio Verde, Sapezal e Campo Novo do Parecis.

 Deputado Lúdio Cabral - Foto: divulgação 

Deputado propõe proibir agrotóxicos

Preocupado com o uso desenfreado de agrotóxicos em Mato Grosso, o deputado estadual Lúdio Cabral (PT) apresentou projetos de lei para proibir produtos a base de glifosato, neonicotinóides e 2,4-D no estado.

Os projetos proíbem a produção, o armazenamento, a comercialização e o uso de agrotóxicos a base dessas substâncias, que são prejudiciais à saúde.

O glifosato, ou N-(fosfonometil)-glicina, é apontado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um possível carcinogênico, ou seja, substância causadora de câncer. O glifosato é largamente utilizado na agricultura em Mato Grosso para eliminar ervas daninhas. Alguns produtos a base de glifosato são popularmente chamados de “mata-mato”.

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